Pânico (1996, Wes Craven)

Uma das coisas que pode tornar um slasher film assustador é a própria condição ambígua e misteriosa de seu assassino. Ele estava logo atrás de mim mas de repente aparece com um susto na saída, à frente, que eu estava tentando alcançar. Casey (Drew Barrymore) pode ligar para a polícia, mas não o faz. Sidney se tranca dentro de um carro; ele tem as chaves. Trata-se de um homem de carne-e-osso, com um plano frágil e passional mas, ao mesmo tempo, de um fantasma, do qual, não importa o que se faça, é impossível se livrar. Igual à fantasia do Ghostface: é uma roupa falsa, brilhante, que foi comprada numa loja de departamento qualquer – mas esta roupa é a imagem da morte. Em certo sentido, uma cena na (ótima) sequência de abertura na qual Casey é assassinada, parece resumir Pânico, sua estratégia, sua genealogia e, talvez, a condição do seu sucesso enorme: Casey já levou várias facadas. Pouco antes de ser levada à árvore na qual será pendurada, ela, quase perdendo a consciência, tira a máscara do assassino. Um pequeno movimento da câmera corrige o plano, que agora exibe a faca ensanguentada. Este movimento revela a força de Pânico: o espectador não pode saber quem é o assassino para ser mantido na poltrona até o final; ao mesmo tempo, realmente não importa quem ele é, mas o quê – a própria morte inescapável.

Falar em genealogia é falar, sobretudo, em Halloween (1978, de John Carpenter). Não por acaso este é o primeiro filme citado (por Casey, ao telefone) no fluxo abismal de referências que Pânico traz e o que passa na TV da festa do grand finale. Em Halloween, Laurie (Jamie Lee Curtis – a “scream queen” ultra citada em Pânico e que até hoje deve uma participação especial na série) olha pela janela e vê Michael Myers em pé, fantasmagórico com sua máscara branca, parado no quintal atrás das roupas estendidas. Um desvio no olhar, uma distração e o lugar já está vazio, só o vento balançando o varal. Eis o que torna Halloween assustador até hoje. Michael escapou do sanatório, mas, por que ele mata? O filme parece perguntar: importa, afinal? Uma de suas cenas mais impressionantes é quando Laurie tira a máscara de Michael e o que vemos, para nossos espanto, não é um monstro deformado (como Jason Voohees), mas um homem estarrecedoramente normal. Podemos lembrar dos assassinos de Pânico – Billy, namorado de Sidney e Stu, uma versão sua piorada, mais bizarra e sem controle. Se o “motivo” de Billy é frágil (sobretudo com relação às outras mortes que não a de Sidney), Stu declaradamente não tem motivo algum e a dupla conclui: “é muito mais assustador quando não tem motivo”. Podemos lembrar também do assassino surgindo do nado no banheiro feminino quando Sidney está sozinha: Pânico não deixa claro se foi real ou imaginação dela. As excelentes duas sequências de suspense na casa de Stu, onde os atores vão seguindo o desenho de som de Halloween (que passa na TV da sala próxima), não deixam dúvida: a ideia de um Mal ou da Morte em volta das pessoas é totalmente herdada do filme Carpenter (a certa altura, Tatum, reclama a Sidney do pessimismo da amiga: “você está soando como um filme de Wes Carpenter”).

Mas em Pânico, essa ideia de morte está relacionada menos a uma espécie de categoria eterna de um “universo transitório”, e mais a algo intrínseco à violência da natureza humana. Em A hora do pesadelo (a outra grande mina de ouro de Craven), essa visão de mundo já é identificável. Mas Freddy era visualmente um demônio do mundo antigo que tirava seus poderes de um onirismo fantástico. Ghostface é uma pessoa qualquer, familiar e cotidiana. Há, porém, algo que os conecta: se era impossível para as vítimas de Fred desvencilharem-se das ondas do Sonho, Ghostface e as pessoas em seu entorno também estão presas dentro de uma bolha fantasmática, que no filme é denominada genericamente como “scary movie”. Mas os próprios modos como a crueldade da mídia contemporânea é representada (para Gale Weathers a vida de seu livro está acima da vida de um homem) e como uma certa geração – que tem em suas figuras emblemáticas os inabaláveis, frios e meio bobos amigos de Sid e namorados Stu e Tatum – é figurada (lembrar da punição do diretor da escola) sugerem que essa bolha é mais ampla que uma divisão de gênero para videolocadoras: os personagens de Pânico não podem escapar da cultura.

Mas o próprio Billy Loomis confirma a distância tomada pelo filme com relação a qualquer tipo de moralismo quando corrige a acusação de Sidney: “doentes, viram filmes demais!”: “filmes não criam psicopatas, Sid, só os tornam mais criativos”. A “morte” em Pânico é, assim, ao mesmo tempo arcaica e contemporânea, do mesmo modo que uma fantasia e uma realidade. Não é à toa que o filme desencadeou uma ressurreição do slasher (Lenda urbana, Eu sei o que vocês fizeram no verão passado, Halloween H20, etc) em pleno fim da década de 90 (como Halloween o fez no final dos anos 70, sendo Freddy Krueger, portanto, um de seus filhos). Esse discurso, quando tange ao contemporâneo, pode ser ousado. Lembremos da sequencia da morte do diretor: ele expulsa os alunos que estavam vestindo fantasias nos corredores e fala que tem “nojo da geração de vocês”. Logo em seguida, quando está sozinho na sala, ele próprio coloca a máscara de Ghostface. Pouco depois, é assassinado. Quem o matou? Stu e Billy ou alguns dos vários estudantes que compraram a fantasia? O filme não deixa isso claro, como na cena de Sidney no banheiro. A “bolha” da cultura é assim inescapável: o scary movie está em toda parte, e não só entre os adolescentes. Antes de ser morto, o diretor encontra no corredor um zelador com a camisa e o chapéu idênticos aos de Freddy Krueger (ver texto sobre A hora do pesadelo nesta edição para comentário sobre como Freddy pode ser visto como a figuração de um medo de classe) – seu nome é Fred e é interpretado pelo próprio Craven. Do mesmo modo, para quem assiste o filme uma segunda vez (é um filme para ser visto uma segunda vez), pode parecer claro que Billy é o assassino logo no início: ele entra pela janela do quarto de Sidney do mesmo modo que Johnny Deep (o magro Billy lembra Deep em 1984) entra no quarto de Nancy, ou seja: ele deliberadamente quis imitar A hora do pesadelo, designando Sidney e seus cabelos castanhos como uma nova Nancy (a nova heroína virgem), do mesmo modo que o cabelo de Casey é parecido com o de Tina (a primeira vítima no primeiro filme de Freddy). Mas a própria Sidney, a própria heroína boazinha, veste a fantasia de Ghostface. E ela mata Billy sem remorso.

Billy parece definir o status dessa “bolha” quando fala para Sidney: “tudo é um grande filme, só não podemos escolher o gênero”. Craven concordaria apenas em parte, pois para ele tudo é um grande filme de terror. Se Freddy surge e irrompe de qualquer lugar, Ghostface aparece em telas: vidros, janelas, objetos que refletem. Quando Sid está com Tatum no supermercado, Pânico perde todo o pudor da verossimilhança e filma o reflexo de Ghostface no vidro da geladeira de sorvetes. É muito improvável que o assassino tenha ido a esse lugar público e cheio de pessoas fantasiado, mas a imagem da morte está nas telas ao nosso redor, por todo lugar – lembrar do reflexo no olho do diretor, da morte de Stu (que tem a cabeça esmagada por uma TV), da primeira vez que Casey vê a fantasia, através de uma janela de vidro; lembrar de quando Dewey entra assustado na sala, a arma em punho, e tudo o que há lá é um cômodo vazio com uma TV – nela passa Halloween. Lembrar do lento zoom que a câmera dá na desesperada Casey agachada contra a parede: ao lado dela a TV está ligada, transmitindo suas ondas do mal.


André Antônio


ISSN 2238-5290