Inverno da Alma (2010, Debra Granik)

A mãe inválida pelo contínuo sofrimento, e o pai apenas desenhando, com sua ansência, o limite até onde se deve ir, para que, enfim, desfaça-se a validez da virilidade que seu retorno exaltaria. Pouco em Inverno da Alma, de Debra Granik, aliás, é sobre a procura paterna; muito, todavia, é sobre essa figura deixando sua herança num amadurecimento que quase nunca ponderou com a responsabilidade que filtra os aspectos da vida entre a familia.

“Eu estava perdida sem o peso de vocês nas minhas costas”, essa frase proferida ao final do filme por Lee Dolly ilustra bem a maneira pela qual assumiu o espólio de seu pai: ela não fugirá (irmãs-filhas, mãe-irmã). Para além, talvez só houvesse aquela liberdade (também “contratual”): variedade sem exemplário; variedade assim rotulada apenas por fluir no corpo afastado de padrão imarcescível, e já noutro sufocável.

Há as drogas, a violência gélida e abrupta; há, sobretudo, a prontidão feminina: espetáculos para explorações familiares. Esquiva-se disso, o filme. A concentração de Inverno da Alma é na dignificação do espetáculo-raiz, naquele desencadeador desses outros: aceitando alicerçar toda uma família, Lee exige para sua identidade méritos que a um sacrifício é intrínseco. E sabe ela? Talvez: o sofrimento dentro duma solidão que vai de encontro do aprofundamento de seu sacrifício, como se fossem prantos de mulher – a diferença é que então afligindo todos os sexos: não foi à toa que Jesus se utilizou disso.

O contato físico tão (pobremente) esperado entre Lee e seu pai ocorre de repente. Nesse encontro, a objetividade sensibiliza tanto a subjetividade quanto a entedia frente ao escasso tempo que o roteiro dedica à afabilidade, à frincha da afabilidade, ao afável discordante do gesto-rei para adiquirir subtância notável. Sempre enredado pela glacialidade da nudez (pois tudo é cúmplice da nitidez que finge, só que renegando a aparência) e a fadiga da alma, o filme nesse momento até reage: flerta com o calor. Mas ali é mesmo onde o calor vegeta.

Bruno Rafael

Abril de 2011


ISSN 2238-5290