127 Horas (2010, Danny Boyle)

Na filmografia de Danny Boyle o limite é o inescrúpulo condensado. Fora Extermínio (que perverte essa perspectiva, tornado o inescrúpulo um castrador do ilimitado), e Sunshine, Alerta Solar (que “ordena” essa perspectiva, tornando o escrúpulo condensador do limite, dentro da sedução do inescrúpulo), o diretor britânico concede a matéria pedinte um atestado de contorcionismos, desde que ela não recalque as conserções circunscritas entre o ar que lhe mantêm a organicidade e a redoma na qual está posta.

Com 127 Horas ainda é assim: o corpo pede; o desfrute surge-lhe: ele deleita-se; degenera-se; (reconstrói-se?). A sintaxe é a mesma. A mudança está no período dado a esses tópicos para se relacionarem com as informações que Boyle prevê para ungir sua programação.

Em Extermínio, o diretor inumaniza o espaço para contaminar os desejos, aqui ele dá inercia ao inumano: torna-lhe enfim inorgânico, menor, e só o alarga à medida em que ele se acopla a um naco orgânico. O período é o mesmo; há mudanças na sintaxe.

Agora Danny Boyle está livre – preso está seu personagem. Agora pode desistir do pretexto corporal, que visava, muitas vezes, conquistar satisfações através de mostras onde não se tinha a ausência traduzida como dor, e sim como esquecimento.

Porque em 127 Horas tão poderosa é a logica da imaginação, que as virtudes (vícios) dela advindas (os) confiscam a tessitura claustrofóbica, em favor da sensatez duma totalidade da ambiência: insolvência de cores: enérgica reciprocidade entre elas e a sanha do sol; música palpitando perante planos que acionam a superabundância dos movimentos; flerte: traços fascinantes de mulheres – formas instigantes de rochas.

As escolhas do leque imaginativo, a saber:a lembrança, o desejo e o delírio. Direi tão-só da lembrança: nela Boyle produziu paragens de lamentações: o arrepender-se pela simplicidade e pela raridade que escaparam (lugar-comum, embora seja tanto artístico quando humano). Não se pode culpar a condução, já que nisso existe concretude, sobretudo numa drástica situação que se prolonga. Todavia, pode-se culpar a exploração encenável disso; é que, aqui, ela captura muita influência do desejo acoplado ao delírio, pois numa lembrança evocada pelo arrependimento (brando, quando para confortar; feroz, quando para autoflagelação, que, por vezes, insere no drama arquitetado esmaltes de estirpe heroica) sobressai-se o que se quer e o que se imagina, isto é, admissão gratuita das possibilidades de desvio do veraz.

Ademais, para sublimar o arrependimento, duas paredes ficcionais são necessárias: uma mais cúmplice da realidade, e outra apegada à realidade como ponto onde o limiar da lacuna se fixa. É que o que tem que se contar são minucias que o personagem não viu, e complexos que ele pensa terem existido. Enfim, para realizar tarefa tão cirúrgica, portanto, bastaria apenas uma reflexão: se na lembrança, pelo que vejo, insiro meus desejos, e, pelo que não vejo, insiro meus delírios, por que ser prolixo, demasiado prolixo?

Bruno Rafael

Abril de 2011


ISSN 2238-5290