O Primeiro que Disse (2010, Ferzan Ozpetek)

Do belo suicídio (por decoro, não diremos de quem) que encerra O Primeiro que Disse decorrem algumas significações do excesso importantes, pelo menos no que registra e da forma como registra uma articulação cômica de temas que se forçam polêmicos para fazer valer o riso. Esta morte, provocada por um excesso consciente da glutonaria, parece ser o estopim de uma série de exageros também conscientemente adotados pelo filme; uma esperança de justificativa estéril pretendida pelo arredondar da trama. São os excessos da imagem, do movimento, do estar em cena, do verbalizar da cena, excessos que revelam estar Ferzan Ozpetek num extremo de sua carreira – quase toda dedicada aos gêneros –, o que, neste caso, não quer dizer muito.

É preciso considerar que o novo trabalho de Ozpetek não pode ser limitado ao primeiro plano de suas situações, ou seja, ao tratamento cômico da homossexualidade, principalmente pela representação rasteira de que se compõe. Antes disso, há nos conflitos paralelos ao enfoque principal (dos dois irmãos que se revelam gays e desestabilizam o núcleo familiar), um frescor que merece uma atenção não exatamente dedicada pelo cinema igualmente desestabilizado de seu diretor. Pois se há uma verdade que corre o risco de ser ignorada, apesar de estar estampada tanto na abertura quanto no final do filme, é de que O Primeiro que Disse não é um filme sobre homens, muito menos sobre gays; pela riqueza saboreada de suas contraditórias personagens, trata-se sim, de um filme sobre mulheres – o que também não diz muita coisa.

Não há um só homem neste filme que chegue perto da profundidade de qualquer mulher em cena, mas infeliz e curiosamente, este é um dado não valorizado por Ozpetek, que não abre o filme a um espaço de entrelinhas, roubando a complexidade do plano ou a profundidade do campo que a imagem necessita para narrar. É como se a imagem das coisas (dos sexos?) fosse distorcida, para privilegiar uma instabilidade do movimento, impedindo uma real apreensão do universo fílmico.

Tomemos, por exemplo, a presença de Alba (Nicole Grimaudo) no conflito entre os irmãos; ela nada mais é do que isso: uma presença. E como tal, incomoda, interrompe, inicia uma nova configuração das coisas. Ela não precisa sofrer ou amar para que nos identifiquemos com seus gestos, por mais estranhos que sejam. E sem que nada seja dito, sabemos que ela sofre, que ama. Assim como ela, há um repertório de figuras femininas notavelmente colocado em segundo plano pelo filme (comprovando que estamos longe de um cinema da presença), o que, a bem da verdade, não deixa de refletir o próprio lugar de Ozpetek.

É como se aqui o diretor soubesse que não pode ir muito longe no tratamento de seus temas-obsessões, preferindo gozar, como a suicida final, de um prazer intenso mas fugaz, definitivo mas muito breve. Assim, O Primeiro que Disse é um filme que goza de seu humor, mas que, indevidamente, enterra-se morto antes que suas imagens cessem.

Fernando Mendonça

Abril de 2011


ISSN 2238-5290