Sidney

Sequências dentro de uma franquia de terror podem ser muito interessantes, se moldadas pelas mãos certas. De fato, este é raramente o caso. Mas, de onde vem esse potencial específico inerente às sequências? Talvez, poderíamos sugerir, da categoria que, para Wes Craven (e Kevin Williamson), tem tido grande importância em Pânico e, também, em outros trabalhos seus: a vítima, a grande vítima das franquias de terror. Aquele herói (geralmente heroína) que sobrevive, tão persistentemente quanto o assassino, desde o primeiro filme. Em Pânico 4, a prima de Sidney pergunta-lhe: “Who are you? Michael fucking Myers?”. Pois, sobre o que poderia ser esta sequência, que continua uma trilogia dada como acabada, senão sobre sequências – em Pânico, tudo se trata de scary movies – e centrada, portanto, na grande e misteriosa força das sequências: a vítima que continua a ser aterrorizada.

Trata-se de um prazer estranho reencontrar os personagens do(s) filme(s) anterior(es), e para esse prazer ser total é preciso que sejam os mesmo atores, é preciso que vejamos o estado mudado dos seus próprios corpos, mesmo que isso signifique ver uma triste e velha Gale Weathers com um botox decadente – lembrar também que o fracasso de A hora do pesadelo 4 é devido em grande parte ao fato de todos os atores terem voltado, menos Patrícia Arquette, a grande vitima, cuja personagem foi simples e frustrantemente interpretada por outra atriz muito pior e mais feia, mas loira ainda assim.

O que essa vitima tem? Foi em O novo pesadelo (que, junto com a primeira e terceira partes são os melhores filmes de A hora do pesadelo) que Craven se propôs a uma reflexão mais desafiadora sobre a pergunta. Neste filme também ultra-metalinguistico (1994, mas com um argumento engavetado dos anos 80), vemos Heather Langenkamp interpretando ela mesma, a atriz e estrela dos filmes de Freddy Krueger. Ao participar de uma entrevista num talk show, Freddy repentinamente aparece rasgando as cortinas e Heather fica lívida. É tudo uma brincadeira (?) e o apresentador, feliz, pergunta: “por que gostamos tanto dessa expressão de medo?”. Por mais que Heather, no filme, não aceite mais participar de filmes de terror, ele nunca consegue escapar (do fantasma?) de Freddy – que, com uma nova maquiagem, está infinitamente mais assustador que este péssimo recente remake do primeiro filme.

Em Pânico, há uma reflexão menor sobre essa vitima, mas em compensação um puro e crescente fascínio. Vitimas “melhoram” com as sequências: elas incorporam os traumas das situações anteriores, estão muito mais perturbadas e isoladas, e também muito mais preparadas e precavidas – embora nunca consigam escapar do terror, que se torna portanto mais intenso. É interessante então notar como Sidney é uma vitima “intrínseca” desde o próprio primeiro filme da franquia. Quando os assassinatos de Ghostface começam, ela já assume plenamente essa personagem em sua qualidade mítica: tendo déjà-vus e relacionando a situação atual com a anterior: a morte misteriosa e inominável de sua mãe, que continua a assombrá-la por todas as outras sequências.

Toda a meta-linguagem de Pânico 4, assim, está voltada para a vitima: esta, Sidney Prescott, volta – claro – a Woodsboro (prazer crescente do espectador) para lançar um livro redentor sobre a luz no fim do túnel, a qual (Ghostface reaparece) ela  certamente nunca alcançará. Mas apesar de todas as auto-referências, o design do titulo Scream 4 é diferente dos verdes e um pouco exagerados Stab 6 e 7 da brilhante e vertiginosa sequência de abertura (embora seja uma pena Anna Paquin aparecer tão pouco). Craven é assim: apesar da iluminação pálida e meio onírica de Pânico 4, que lembra A hora do pesadelo, ou, antes a San Francisco de Um corpo que cai; apesar de “tudo ser um grande filme” e da inserção meio superficial do tema “da vez”, a fama através da internet; a vitima de Craven não é só um elemento narrativo abstrato, um personagem apenas. Há nela uma força “real”, que fascina. Há, em última instancia o filme dentro do filme (que é a “realidade”), é preciso diferenciar, minimamente que seja, o pastiche do “real”. É por isso que Craven faz terror e não comédia. É por isso que é Pânico e não Todo mundo em pânico. E é por isso que esta quarta parte é uma excelente sequência.

André Antônio

Abril de 2011


ISSN 2238-5290