A necessidade de estar presente (ou de ser temático)

Segundos depois de já iniciado, Pânico 4 aciona seu dispositivo mais contundente: o de ser através de um outro filme, máquina primária da sofisticação da imagem ludibriada, isso é, sacrifica sua própria “seriedade” enquanto elemento fílmico para ressoar ecos inconfundíveis que longe de parecerem desgastados ou inconsistentes, sugerem um caminho contemporâneo só possível a um filme que antes de orgulhar-se daquilo que é, orgulha-se daquilo que sempre foi e daqueles que o tornaram presente, possível e interminável. Pânico 4 é um trator de citações de filmes-irmãos que acima das condições “básicas” dos filmes de gênero, compartilham essa necessidade irresistível de transformar o horror em reflexos aglutinantes de si mesmos e, porque não, do cinema como um todo.

Pânico 4 é sobretudo um filme sobre temas, sobre condições de um mundo que em constante metamorfose presencia os avanços tecnológicos e o elevar de demências brutalizadoras e excludentes – Craven parece querer dizer que o mal do novo século é a morte filmada (e que acima das montanhas do crime,  e usando de uma visão estética, poucas coisas podem ser tão cinemáticas quanto a filmagem dos últimos segundos da vida). Portanto, por ser temático, Facebook e Twitter estão tão presentes na vida do ocidente quanto a Páscoa ou o Natal (então Pânico 4 seria tão temático quanto Milagre na Rua 34?), e Craven e o roteirista Kevin Williamson conscientemente subterfugia a adoração dessas ferramentas tecnológicas (e que muito antes de serem ferramentas sociais na visão da demência do mundo da dupla, são pontes do distanciamento de relações entre os jovens ou simplesmente da perversão da vida que precisa ser filmada e exibida ao vivo por meio de um canal de streaming) para destilarem o veneno da crítica bem humorada – que dependendo do alcance do espectador, pode ganhar uma obscura profundidade.

E moldando-se à contemporaneidade, Pânico 4 explora a imagem da fama como aliança englobadora, pois é necessário aniquilar de qualquer maneira aquele que ameaça a intenção de alcançar o status de estrela. A busca desse status, aliás, é o terreno prolífico para a usurpação de certos reflexos, pois se Sidney Prescott (Neve Campbell) se torna imortal ao longo dos quatro filmes, essa sua sublime resistência à morte é, tanto quanto o status de estrela que ela conseguiu após os inúmeros filmes dentro dos filmes da série Stab e de seu livro de auto-ajuda, a motivação que o Ghostface tem para aniquilá-la. Então quando uma das personagens diz que não quer ter amigos, quer ter fãs, a proficiência de todo o discurso do filme se auto-elege como uma espécie de derrocada de toda uma juventude alienada pela imagem de certa fama brotada (principalmente através da internet) e que 99% jamais serão.

A derrota de toda (atual) uma geração parece justamente se encontrar nos resquícios do avanço tecnológico conquistado por uma ou duas gerações anteriores ao desse quórum perdido, o que dá a frase do policial Dewey Riley (David Arquette) uma retórica imagética apocalíptica (“a tragédia de uma geração é a piada da geração seguinte”) modificada aos moldes cravenianos. E por mais que Wes Craven tente por um pé no ingênuo e não tão longínquo passado (ora, seus personagens ainda entram pela janela do quarto para falar com a namorada, como há vinte anos), as vicissitudes do hoje, do agora (dessa juventude que parece renegar tudo o que não seja status), a perversão da vida, essa diabólica necessidade de estar presente, de ser tema (de transforma-se em temático), é para a geração Facebook/Twitter um dilema impossível de se desconectar (ou melhor, de fazer logout) e por assim ser, aterrorizante.

Ricardo Lessa Filho

Abril de 2011


ISSN 2238-5290