Eu Sou o Número 4 (2011, D. J. Caruso)

Não importa o papel interpretado por um jovem dentro de uma high school; do esportista garanhão ao nerd vítima de bullying, todo indivíduo aprisionado a este cenário sofre de uma urgência que dizima boa parte de seu esforço pela sobrevivência. O novo trabalho de D. J. Caruso, diretor que foca cada vez mais seu cinema para um público high school (majoritário no mercado hollywoodiano), reflete algumas das premissas básicas que o cinema para jovem desenvolve há pelo menos 3 décadas, cumprindo o requisito mínimo de atualizar algumas tensões presentes no imaginário deste nicho de consumidores. Nesse sentido, Eu Sou o Número 4 interessa em pelo menos duas linhas de leitura possíveis no tratamento que é dado ao jovem e pelo jovem que sobrevive nos dias atuais.

Em primeiro lugar (e o priorizamos pela qualidade da pertinência), num intervalo bem próximo ao que ainda estamos gozando pelo lançamento de Pânico 4, precisamos situar o caráter do medo dentro da aventura de Caruso. Pois, acima de tudo, Eu Sou o Número 4 também opera como uma representação do medo – onde a ausência deste também deve ser considerada – na maneira em que o ser jovem se encontra para permanecer num mundo desprovido de privacidade, consequentemente, de subjetividade.

É por esta perspectiva que percebemos o quão aterrorizante tornam-se, para John (Alex Pettyfer), as pequenas coisas que circunscrevem o universo juvenil onde tenta constantemente inserir-se. As freqüentes mudanças geográficas que é obrigado a enfrentar, lançam-no sempre num domínio de incertezas, e o impedimento do afeto daí advindo revela-se como o maior problema para a resolução de algumas dúvidas que ainda não lhe foram esclarecidas (e para nós nunca serão, dada a inconclusão do filme) a respeito de suas origens, sua verdadeira identidade e propósito de vida. Se desviarmos um pouco a atenção da violência que emerge dessas dúvidas – o que faz de todo o filme uma experiência que não escapa de um estado urgente de imagem, característica dominante do cinema jovem americano – confirmaremos tratar-se Eu Sou o Número 4 de um filme sobre um problema que assalta todo ser humano, pois referente a própria existência. É nos lábios da jovem (Dianna Agron) por quem John se apaixona, que a pergunta é repetida: “Afinal, quem é você?”

Não há resposta. E o que perpetuará o desespero em John é justamente este silêncio, este desconhecimento de si, o verdadeiro motivo de suas fugas, aquilo que o obriga a esconder-se de câmeras fotográficas, filmadoras ou flashes de telefones celulares. A impossibilidade do afeto como justificativa para o medo de John se reafirma quanto mais ele precisa apagar os vestígios de sua vida, mais especificamente, de seu corpo. Ele não pode ser encontrado por seus perseguidores, e por isso não se encontra. O apagamento das fotos, vídeos e derivados que infestam a internet com seu rosto termina por projetar a destruição de qualquer traço de individualidade, pois não há como sobreviver hoje fora das margens de uma imagem virtual (daí nos referirmos ao novo Craven), de uma identidade construída pelo olhar dos outros, para os outros, independente da falsidade que acarrete este estado de imagem.

Pelo medo tecnológico, trazemos na memória o tratamento do tema realizado pelo mesmo D. J. Caruso (autor?) em seus dois filmes anteriores, os eficazes exercícios hitchcockianos Paranóia (2007) e Controle Absoluto (2008). Com esta trinca de filmes Caruso demarca definitivamente um terreno de investigação para o relacionamento já intrínseco entre a imagem de cinema e as tecnologias do imediato, domínios que articulam uma ameaça contra qualquer impressão de segurança e reafirmam a efemeridade dos corpos físicos. Seu grande problema, pelo menos o maior de Eu Sou o Número 4, é não impor qualquer resistência à constatação dos novos medos senão pela aceleração vazia do movimento, como se fossem seus filmes, fugitivos de si mesmos, daquilo que denunciam e omitem, louvam e desprezam. E aí entramos na segunda linha de leitura aberta pelo filme, a que transforma todos estes questionamentos numa projeção ficcional pré-adolescente repleta de alienígenas, explosões e adrenalina descartável. Sobre esta, deixaremos a reflexão para o próximo filme que repetirá exaustivamente o arsenal de clichês. Não demora, toda semana o mesmo filme estréia no multiplex ao lado.

Fernando Mendonça

Abril de 2011


ISSN 2238-5290