Ricky (2009, François Ozon)

Há muito se convencionou que, dos recursos cinematográficos para a visibilidade, não filmar uma coisa pode ser mais revelador que expô-la cruamente. Nesse sentido, pelo menos desde Sous le Sable (2000) François Ozon vem insistindo numa reflexão sobre o dar a ver pela imagem de cinema, sob um foco especificamente relacionado ao que não vemos de um filme. Toda uma década dedicada ao ser ou não ser da elipse culmina em Ricky, filme elogio de um esgotamento do olhar, fruto próprio da impossibilidade ou do que seu diretor concluiu após tantos exercícios (des)equilibrados sobre o mesmo problema.

Ponto culminante, porque talvez Ozon nunca tenha ido tão longe na problematização do não visto, desse inconseqüente anti-cinema que prolifera em níveis de aceitação independentes do nicho a que um filme se destina (seu mercado). Ricky termina por se tornar a vítima de sua própria crítica, o olhar impossível de ser encontrado pelo cinema, a ridicularização de um mundo que não se permite mais reproduzir.

Eis um mundo nomeado – desde o título –, ordenado demais para o desconforto que provoca. Um cinema que aposta na elipse (não se vê a gravidez para o nascimento do bebê) e no explícito (diluidor do mesmo bebê). E de tudo, resulta um experimento disforme sobre o ato primeiro da representação.

Se falamos de elipse, o fazemos sob o conceito preciso de indefinição do acontecimento proposto por Noël Burch em sua Práxis do Cinema e praticado desde sempre por autores que vão de Buñuel a Kubrick, passando necessariamente por Polanski, nome-chave para as articulações de Ozon, especialmente aqui. Foi exatamente este último quem melhor questionou o estado visível das coisas também através de um bebê (Rosemary’s Baby, 1968), preenchendo o intervalo entre o olhar e a imagem com uma potencialidade quase material do fantástico. Mas se em Polanski temos a plenitude do não visto restabelecida pela delicadeza da encenação, onde acreditamos no que não vemos, em Ozon seremos assaltados pela auto-conscientização do ‘não querer ver’, de não acreditarmos no que vemos. No primeiro é impossível olhar, no segundo, o olhar é impossível.

Com Ricky, Ozon restitui/destrói as últimas esperanças de um questionamento que ainda deve vigorar em suas obras futuras, falsificando um desfecho que esconde – pois tudo que Ricky faz é esconder – a negatividade das conclusões que seu diretor parece alcançar. Pela lógica do provérbio, evita-se a dor de um coração ao se fechar os olhos, mas no cinema é preciso ver. Que enfrentemos a dor.

Fernando Mendonça

Maio de 2011


ISSN 2238-5290