Por que Machete e Scott Pilgrim estão na sessão de arte?

Machete (de Robert Rodriguez, 2010) e Scott Pilgrim contra o mundo (de Edgar Wright, 2010) estrearam nos cinemas brasileiros através de uma distribuição que visou ao assim chamado “circuito de arte”. Isso significa que esses filmes chegaram aos cinemas da maioria das cidades do país – quando chegaram – no que se conhece como “sessão de arte”: um tipo de sessão que, via de regra, não deixa o filme que exibe mais de duas semanas em cartaz e ocorre pouco mais de uma vez durante a semana em horários como o meio-dia do sábado ou onze da noite da quarta. Quando muito, tiveram sessões mais “estáveis” nas grandes capitais em pequenos cinemas chiques e com café – embora já tivessem sido lançados em DVD há algum tempo em outros países.

A lógica desse “circuito de arte” já entendemos bem: as distribuidoras enxergam pouco potencial lucrativo em certos filmes, pois a maior parte do público – elas assim estabelecem – está à procura de diversão e não de reflexão. Além do mais, poucos são os iniciados na tradição de fruir corretamente uma obra de arte (embora esses poucos já justifiquem a existência sólida de um “circuito” voltado para eles) e, portanto, as obras de entretenimento são mais lucrativas. Tal lógica é bastante emblemática dos paradoxos da arte em uma ordem social como a nossa: a arte, que de direito pode transformar qualquer coisa do mundo em algo seu (de uma árvore qualquer filmada a um urinol tirado de contexto), de fato é reservada a uma parcela ínfima de pessoas; a arte, um dos fatos mais incomensuráveis de nossa experiência, é no entanto medida por um circuito mercadológico.

Mas entender o fenômeno das sessões de arte apenas a partir de uma pretensa “vontade” do espectador comum e da simples divisão intelectual que determina modos de nos relacionarmos socialmente é ficar apenas na superfície. As situações de Machete e Scott Pilgrim podem ser casos estratégicos para enxergarmos um pouco além, pois estes filmes podem propor a seguinte questão: por que dois filmes que não apenas se põem distante do experimentalismo radical das linguagens da “arte de vanguarda” mas, pelo contrário, desenham suas propostas estéticas com base em signos fortemente presentes na cultura popular de massa, estão no circuito de arte e não nos multiplexes que lotam todo fim de semana?

Ambos os filmes se estruturam através de narrativas completamente delineadas e diegeses coerentes que não mudam ao longo da projeção. Machete é um filme de ação que não deixa o espectador ficar entediado por causa da freqüência com que disputas e brigas sangrentas, explosões, mistérios desvendados e reviravoltas, ícones do cinema de ação como Steven Seagal e lindas mulheres portando armas de fogo enormes marcam o ritmo do longa. Scott Pilgrim traz a tona elementos de uma certa “sensibilidade nerd”, com suas referencias visuais e multicoloridas a quadrinhos e videogames, com sua trama ao mesmo tempo engraçada e aventuresca que põe o herói no centro de uma missão cuja dificuldade aumenta com obstáculos até um grand finale desafiador que envolve obviamente a conquista de uma garota.

Ver o modo como o público brasileiro de cinema teve acesso a esses longas mostra, assim, que a distribuição de filmes em nosso meio social não obedece simplesmente a uma divisão “arte experimental vs. entretenimento divertido”. O que enxergamos nesta situação é que há coisas em Machete e Scott Pilgrim que o “espectador comum” pode certamente entender – mas há coisas que ele não deve entender.

De fato, embora os códigos e a linguagem dos dois filmes sejam amplamente acessíveis e inteligíveis em nosso contexto cultural; apesar da postura de diversão que a estética de ambos claramente conclama; há algo neles que deve permanecer desentendido, isto é, estranho, dissonante ou bizarro demais. Há neles certas estranhices que só aquelas poucas pessoas acostumadas com a extravagância “sem função e sem sentido” da arte podem suportar e não o “espectador comum” que só quer diversão e relaxamento depois de um dia cansativo.

Essas estranhices não estão em códigos ou formas vanguardistas e experimentais, mas em coisas como o herói 100% macho de Machete dormir com Jéssica Alba bêbada e indefesa e mesmo assim não tocar nela por ele ser “a real gentleman”; na chacina sangrenta entre marginais que ocorre numa igreja do mesmo filme que ganha uma beleza inaudita pela fotografia dourada e pela música sacra “Ave Maria” que toca estridente enquanto as metralhadores disparam em câmera lenta; na estética televisiva da época das eleições nos Estados Unidos que o filme associa a uma corrupção sem precedentes encabeçada por um Robert deNiro grisalho e respeitoso como um cidadão americano candidato a senador; na forma politicamente incorreta e frontal, ainda que sutil, com que situações da imigração mexicana são tratadas, diferentemente da delicadeza sensível e consensual de filmes como Crash, no limite ou Babel.

Em Scott Pilgrim, há dissonâncias da mesma ordem: o roommate do herói é gay e no entanto ambos compartilham a mesma cama sem que haja qualquer problema com isso; aqui os membros de uma banda indie abandonam sem remorso algum um grande amigo por um contrato lucrativo; aqui um jovem pode lutar em pé completo de igualdade com uma jovem, de uma maneira frontal cuja estranheza dentro do proto-machismo da cultura juvenil mainstream pode estremecer os mais politicamente corretos. Essas coisas não são vistas em outros “filmes nerds”. Situar Scott Pilgrim na tradição destes, aliás, pode ser esclarecedor: Scott, nervoso, vira as duas doses de gim na festa que nunca veríamos Peter Parker beber; ele aliás está distante do padrão de beleza comum em seu meio, pois Michael Cera não é um Tobey Maguire, um Robert Downey Jr. ou um Hugh Jackman. Algo compartilhado com Machete: seu herói mexicano é um mito, mas já não é jovem e suas tatuagens de aspecto sujo lembram os filmes do passado onde ele era justamente a alteridade vilanesca que era derrotada pelos brancos norte-americanos.

Não tentamos mostrar aqui que Machete e Scott Pilgrim são subversivos “tematicamente” e não, como estabelece o modelo modernista, “formalmente”. Citamos acima outros filmes que compartilham o mesmo universo temático dos dois e no entanto são brilhantes ganhadores do Oscar e fazem bilheterias milionárias. O que estes dois longas trazem de dissonante e de não-inteligível é uma sensibilidade diferente da que a ordem social hegemônica legitima. Para isso não precisam ser ostensivamente “experimentais”. Eles trazem outra forma de coordenar o sensível; uma forma de tornar propriamente visível o que era antes invisível ou latente; outra maneira que enxergar pessoas e grupos que em uma determinada partilha sócio-sensível não conseguem se livrar do estereótipo, sobretudo pela alternativa do politicamente correto. Estes filmes põem em cheque uma forma de ver e estar no mundo e propõem outra, que não se pode ver nas novelas do horário nobre e nas grandes estréias do fim de semana. A própria ordem sensível hegemônica que eles esteticamente podem subverter tenta garantir, porém, a própria divisão que os deixa acessíveis apenas a uma parcela mínima de espectadores.

Mas também não tentamos mostrar aqui a conspiração cruel da indústria do entretenimento e do mercado ou circuito de cinema. Tentamos apenas chamar atenção para a complexidade e os paradoxos que subjazem à sua lógica. Porém, enquanto Machete e Scott Pilgrim estreavam ao meio-dia do sábado no cinema de um shopping distante, os camelôs e a internet – sempre perseguidos pelas autoridades amedrontadas com a possível cena política que eles podem desencadear – já tinham cópias acessadas por um número irregistrável de espectadores que eram atraídos pela estética festivamente popular dos dois filmes.


André Antônio

Maio de 2011


ISSN 2238-5290