Mais uma vez, o verso

Mórbida constatação, a mais poética cena do novo filme de Lee Chang-Dong dá-se nos minutos de abertura, com a flutuação de um cadáver no tranqüilo leito de um rio e o descobrimento deste por um grupo de crianças que distraidamente brincava à margem das águas. Na brevidade da cena temos concentrada a força motora de todo o filme: primeiro, pela delicadeza com que esta descoberta é recebida (pelas crianças, pela imagem e por nós), segundo, pela maneira como este recebimento se efetua.

É na descoberta das coisas que o ideal poético defendido pelo filme se assenta; no primeiro olhar lançado para um objeto, emoção, um alguém ou estado de ser. Somos pedagogicamente conduzidos pelo diretor no letramento do olhar que a protagonista Mija (Jeong-Hie Yun) decide enfrentar, num momento particular da vida em que se descobre incapaz do gesto poético criativo – de fato, sua única descoberta genuína. Falso ensinamento, logo Mija perceberá que para chegar ao verso terá de esquecer suas impressões de mundo, assim como a errônea convicção de que no belo reside a poesia – conclusões que terá de alcançar sozinha; numa solidão compartilhada pelo espectador, que nunca encontra no filme a inspiração adequada para descobrir o mundo na força de uma primeira vez.

Todos os versos de Poesia já foram escritos, recitados, decorados ao pé da letra por um modo de ver associado ao dos asiáticos. Cinema onde a contemplação e a própria duração do tempo fazem parte de seu vocabulário clássico, vem do oriente toda uma escola de imagens da poesia já aprendidas pela rasteira erudição ocidental. Imitá-los, aplaudi-los, reconhecê-los é o que continuamos a fazer, distinguindo mal aquilo que aceitaremos reter na memória. Afinal, premiar os dois lados da moeda – forçando a metáfora para colocar Apichatpong e Chang-Dong numa mesma moeda – é a saída mais fácil para se evitar maiores erros. O perigo da condescendência. Mas continuemos falando deste cadáver.

Da esperta resolução em tornar o corpo morto descoberto pelo olhar infantil (este sempre assolado pela dor/poesia do ineditismo) Chang-Dong esclarece honestamente, nesta introdução, a transparência de seu cinema, o que não deixa de ser um mérito. Encenação que se opõe radicalmente a de outro nome asiático que pode ser lembrado por também tornar a flutuação de um cadáver no rio o tema de abertura: Tsai Ming-Liang e seu O Rio (He Liu, 1997).

Problema metalingüístico, o cadáver de Ming-Liang é para o filme que seu filme encena (a sequência consiste na dificuldade que uma equipe de filmagem tem em fazer a flutuação de um boneco parecer convincente para as câmeras) o oposto daquilo que vemos em Chang-Dong. No filme dos anos 90, o que temos é o enfrentamento de um problema técnico, consequentemente, a veracidade que este obstáculo pode trazer ao olhar espectador. Ali o cinema é despido corajosamente dando a concluir que uma boa imagem requer mais que uma idéia eficiente. É preciso verdade, realismo, conceitos que passam longe do projeto de Chang-Dong.

As duas cenas quase sincronizam um antes e depois da encenação. Enquanto Liang prefere explorar o rascunho do verso poético, a resistência para se chegar a ele, Dong opta por entregá-lo pronto, limpo e polido, quase ofuscante de tamanha beleza. Eis o equívoco central de seu filme. Ao pregar um tratamento poético pautado pela descoberta, pela primeira impressão (apenas uma das possibilidades da leitura poética, já que esta também pode advir do desgastamento da impressão primeira, do olhar derradeiro), Chang-Dong trai-se ao tratar seu cinema de maneira totalmente oposta ao discurso que profere, construindo imagens já concluídas, definidas dentro de uma noção de mundo particular e encantada. Morto o esforço, como enxergar a poesia?

Fernando Mendonça

Maio de 2011


ISSN 2238-5290