Rebelião que rodopia

Sempre estarrece o extrativismo da sensibilidade do cinema asiástico, sobretudo realizada sobre o peso, do qual vamos adquirindo as premências ao passo que a poesia é a sensação de originar um sentido para um fato sem abortar o vivenciado pelo mundo na sua ausência e/ ou displiscência.

Mija, ao final de Poesia, desaparece. Após construir o poema, sua figura esgota a resolução do movimento discursivo; discurso de observação tão instrumentalizado que sua doença torna-se a espença da poesia em debater com a delicadeza que mais vigora no âmbito de admissões poéticas a contemplação do homem para com a natureza.

Portanto, o mártirio de Mija foi consensual porque a poesia configuradora do todo possuia insensatez; insensatez da rebelião, pois extermina o rótulo de um subterfúgio ao permitir um suicidio no primeiro lugar onde alguem ingênuo em relação ao universo dela, da poesia, iria procurá-la: na natureza natural.

A poesia encurralando, partindo de ludíbrios, partindo de fadigas duma serventia com percalços de flor confiante que a gota de orvalho encene o espinho. Entretanto, a partir daí pode-se dizer: a busca de Mija por poesia é condizente com a ingenuidade inicial de tal empreitada e, por isso, mais ou menos equivocada; já a concepção poética que a aguarda, não. E isso menos por persistência na busca do que por exigência da poesia, que fustiga; que é, afinal, a performance dos sentidos num trânsito de símbolos.

Das duas, Mija e a Poesia, Lee chang-dong se associa à primeira e segue a segunda. O diretor só arma sua noção documental quando já se conhece qual doença tem a protagonista. É nessa parte que, numa das aulas de poesia, três alunos (incluindo Mija) ficam diante duma câmera a contar a mais sublime lembraça que possuem, todos como que enquadrados pela formalidade do timbre duma entrevista. Antes, quando ainda se desconhecia a doença, também numa das aulas de poesia, outros três alunos (sem Mija) realizaram a mesma tarefa.

Enquanto a promessa do esquecimento permanente do verbo, para a natureza, é o atestado da sua missão (servir a Mija para que, junto com a poesia, possa rebelar-se, sorvendo o estatuto da figura humana), para Lee chang-dong, é a reavaliação de sua proposta: seguir a primeira e se associar à segunda.

Sutilezas de poesia: Mija chega a ponte onde ocorrera o suicidio; observa o rio que há abaixo dela; parece ali sentir-se bem, suas expressões tranquilizam a profanação do estigma posto ali. De repente, o vento, em uma aguda lufada, tira-lhe o chapéu, levando-o até tocar a superfície do rio, onde, em miudas ondulações, denuncia-se esse contato. Após ver tudo isso, Mija completa a inacabada expressão do sentir-se bem com ainda mais graciosidade; e nesse momento, a inspiração que tanto almejara chega-lhe. Quando vai situar no papel o ímpeto dos versos e a ideia que os harmonizará, inicia-se uma chuva – vemos Mija inclinar para cima a cabeça um pouca mais, a fim de sentir mais deliciosamente as gotas; a fotografia então enquadra o papel onde a inspiração se deitaria sendo pouco a pouco preenchido pelos formatos das gotas. Logo após, a fotografia retorna à câmera e exige dela um deslize na suavidade que a chuva não pratica (a horizontal): vê-se o rio repleto de miudas ondulações, as mesmas que ao cair fez o chapéu, do qual se configurou a inspiração para o poema; poema não esboçado porque o papel deu-se a chuva; chuva que cai sobre o rio… Chapéu que no rio caira…

Ou seja: ciclo, rodopio dos elementos, de Mija e da poesia que realiza isso: encurralando e ludibriando….

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Houvera perambulando por mim um raciocinio sobre esse cinema que é o asiático: “A poesia era o céu do peso, cujo corpo era tido mais por espírito do que por carne; quando lhe adentrava definidas levezas ia-se facilmente para tal céu!”

Mas isso perambulara nos tempos de eu menino…

Bruno Rafael

Maio de 2011


ISSN 2238-5290