Cinema de maturidade

O quinto filme de Chang-dong Lee comprova o estilo maduro e sensato de seus filmes. Peppermint Candy já demonstrava um caráter de vivência ao revelar situações da vida de forma sóbria e sem artifícios melancólicos sem deixar de lado uma estética ficcional. Poesia surge como o ápice dessa maturidade de vivência cinematográfica do diretor. Ao visualizar qualquer referência sobre o filme o espectador é naturalmente levado a pensar que estará preste a ver mais um drama familiar coreano, mas a imagem de paz e serenidade passada pela publicidade é logo convertida nos primeiros minutos de filme, num tom de expectativa de mistério.

Ainda assim o seu realizador engana o público ao passar uma imagem de alguma narrativa policial como acontece em Mother- Em Busca da Verdade do também coreano Joon-ho Bong. Diga-se que semelhanças entre os dois filmes são inevitáveis antes de a história tomar algum rumo durante a direção. Se a película à primeira vista engana ao ser um drama sereno sobre a velhice, mas também ilude ao parecer ter um tom de investigação como no filme de Bong, em que Poesia finalmente consiste? Não seria errado dizer que ao mesmo tempo consiste na serenidade de um filme sobre velhice e de um tom de investigação e também nenhum dos dois.

A questão é que o filme de Lee não se fixa nem diretamente sobre a velhice nem se debruça numa investigação de vitima – culpado. Os fatos ocorrem sob uma narrativa lenta onde não se busca descobertas, mas desdobramentos. Para isso Lee utiliza-se de percepções que não explicitadas para que o espectador logo descubra, mas sim na sutileza com que os planos personagens-cenários encontram-se incluído. Um bom exemplo disso é sua perspectiva da natureza e o mundo urbano.

A beleza da natureza no filme de Lee se contrapõe ao mundo corrompido, onde vivem seus personagens. Poesia é ao mesmo tempo um filme simples e um filme complexo. Simples da forma como é realizado e complexo pela forma como essa simplicidade é representada no filme. Nesse sentido o filme de Chang-dong Lee merece estar entre os grandes filmes de 2010, pela sua serenidade, maturidade e humanidade. Um filme que precisa sem conferido.

Nuno Balducci

Maio de 2011


ISSN 2238-5290