Algo sobre o descobrir

A inspiração artística, a dimensão particular em que o exercício íntimo do descobrimento (pessoal, universal) reluz no homem – é sobre isso que Poesia vai dentro dos seus quase 140 minutos de projeção, relatar, mas aqui não na ótica de um poeta fora de série, mas sim dentro da lúcida simplicidade da idosa Mija (Jeong-hie Yun), que ao descobrir as sutilezas do mundo, descobre também uma outra vida, uma outra modulação imagética e sonora (o som na obra é mínimo), porque o que cristaliza-se no filme de Lee Chang-dong não é a genialidade assustadora, mas a perseverança da candura.

O descobrir, aliás, é uma pirâmide que Chang-dong parece construir desde o filme anterior a Poesia, o Luz Secreta (Milyang, 2007), porém, a intenção do descobrir em uma modulação completamente distinta: enquanto em Poesia o descobrir é a conseqüência do esforço dos sentidos e signos em reconhecer os outros universos semióticos acopláveis e então cristalizar o momento-vida em forma textual, Luz Secreta alcança o desespero mais profundo para que então a sua protagonista (mais uma vez os signos entre os filmes parecem querer se compartilhar) descubra no buraco negro da dor o vulto possível do continuar: pois aceitando a morte de seu marido e de seu filho como conseqüência (desastrosa sim, mas por ser puramente dolorosa evolutiva também) da vida. E se o cinema, como vida, pudesse indicar outro cinema para confortar essa esposa e mãe, Além da Vida (Hereafter, 2010), de Clint Eastwood, lhe seria mais potente e reconfortante do que qualquer culto religioso em que a mulher se ver obrigada a ir para mitigar seu desespero – é o cinematográfico como religião suprema.

Poesia, Luz Secreta, Além da Vida. Filmes sobre o morrer, grosso modo, mas que na constelação de sutilezas os tornam, na verdade, três celebrações sobre o renascer, sobre a vida – porque é só nela que teremos a possibilidade de amar alguém ou alguma coisa. E, sobretudo, Poesia se fecha como filme-ressurreição: a colegial que nos é apresentada no início do filme, boiando morta no rio, reaparece, agora com vida (porque é um flashback) para exemplificar sua ressurreição: morre para que outros descubram a beleza e a importância de tudo aquilo que os rondam. A morte que traz a compreensão das sutilezas do mundo. Então, o filmar da morte em Poesia é também a catapulta da vida – que alçada torna-se infinita, linda.

Ricardo Lessa Filho

Maio de 2011


ISSN 2238-5290