Meu Raio de Sol (2008, Reha Erdem)

Ingenuidade partida

A noção da indiferença para com uma criança, a dimensão de um ambiente rural que compactua com esse esquecimento das relações, da vida infantil que brota no intento de ser acariciada pelas figuras paternas e maternas, mas que por inúmeras causas reverte-se em isolamento, em distância, na mudez dos sentimentos. Meu Raio de Sol é o esboço de tudo aquilo que a infância poderia ter sido, mas que levada ao extremo abandono (físico, emocional, temporal) parece se fragmentar ao caos da mudez do mundo: sua jovem protagonista é incitada pelo próprio silêncio a esquivar-se das relações exteriores, porque tudo parece magoá-la: não há ser vivo que não queira algum benefício, que não queira abusá-la, que não queira tirar proveito de sua incapacidade (familiar e cultural) de revoltar-se.

Hayat (Elif Iscan) é a garota da infância roubada: seu pai, um pescador, não para em casa e ainda se arrisca diariamente vendendo prostitutas e artigos ilegais para navios estrangeiros. Em casa, Hayat ainda é a responsável por cuidar do avô moribundo que possui uma doença respiratória crônica. Nessas imagens que saltam aos olhos de Hayat, o mundo nunca poderá possuir (mesmo para uma criança) a beleza da infância: não há piedade nas imagens emergidas por Reha Erdem à pequena garota: a infância em Meu Raio de Sol é um movimento solitário e dolorido para a vida adulta, que por sua vez somente existirá pela conscientização da personagem de sua feminilidade em uma sociedade turca rígida ao “sexo frágil”: Hayat assim é um cordeiro jogado aos lobos famintos.

Uma andarilha naquele ambiente rural, a garota é sistematicamente isolada das relações com o mundo por causa de inúmeros traumas familiares: a condensação narrativa que existe não é outra coisa senão a exigência de todos ao seu redor para que ela pule a infância e adolescência e torne-se uma mulher do mundo. Mas por mais brutalizadoras que sejam as imagens que lhe são oferecidas, Hayat é ainda sim uma garota que está no estágio inicial do crescer, e quando um dono de uma loja de conveniências a abusa, ela reage com sua mudez impenetrável – ela sabe que não pode se revoltar porque o seu isolamento não permite tal ato. Os enquadramentos cirúrgicos de Erdem impõem a impossibilidade de revolta à sua protagonista: não há espaço para braços esticados, para os momentos de ação. Meu Raio de Sol é um filme que contempla o próprio cinema ali projetado ao mesmo tempo em que evidencia através dos gestos cuidadosos e, principalmente, do silêncio da protagonista, a mutilação de toda uma ingenuidade – e é por consequência a mutilação de alguma possibilidade de futuro, de vida.

A forma de Erdem busca no extracampo sua aura imaginativa: não muito raramente vemos a pequena protagonista sendo inserida nesse caminho cinematográfico. É o esforço do cineasta em não diminuir a possibilidade de compreensão do espectador – mas antes disso, de elevá-la a perspectivas, de amplificar a imagem e o momento ali jorrados. As elipses temporais que sempre surgem após a utilização do extracampo são a mais pura nótula ao cinema: são frações narrativas que legitimam a tragédia da perda da ingenuidade perante o mundo inexplorado – exasperação irreversível.

Aliás, essa exasperação irreversível é em Meu Raio de Sol uma passagem de continuação dentro do cinema de Reha Erdem, que já tinha executado algo parecido em Tempos e Ventos (Bes Vakit, 2006): pois depois de tanto sonhar com a morte do pai, a figura paterna finalmente falece e não há nada no mundo mais atormentador para o garoto do filme após se dar conta da realidade (porque é aqui e então, um outro olhar sobre a perda dessa ingenuidade) sem a figura daquele homem que por mais que o maltratasse, era seu pai, seu pilar: a exasperação da dor é inevitável. É o próprio olhar já maculado – do cineasta e do cinéfilo, mas nunca do cinema.

Ricardo Lessa Filho

Maio de 2011


ISSN 2238-5290