Sobrenatural (2010, James Wan)

Não são muitos os filmes que se atrevem a mostrar um homem passando creme anti-rugas, antes de dormir, enquanto conversa com a esposa. Se pensarmos num cinema de gênero, essa estatística reduz ainda mais. E pelo menos para um exemplar de horror, Sobrenatural deve ser o primeiro filme da história a contar com uma cena assim. Deste cuidado com o pormenor, nos situamos com maior precisão dentro da perspectiva que James Wan impõe aos seus filmes, todos devedores de uma preocupação com o detalhe que, para o bem ou para o mal, redefinem uma das facetas que o cinema de horror tem apresentado no correr da última década.

Muitos se perguntaram sobre o motivo que justificaria mais um filme sobre casas assombradas. É curioso como o horror, dentre todos os gêneros, permanece como aquele mais incompreendido, aquele que mais precisa ser nomeado, fazer sentido, depender da explicação. Para quê outra sequência, outra refilmagem, outro olhar sobre a mesma coisa? Para quê um filme?, já nos perguntamos… Enquanto re-atualização de mitos, toda e qualquer ficção está sujeita a esse tipo de questionamento, e é muito saudável quando o próprio mecanismo fílmico incentiva uma conscientização de seus meios, o que não deixa de ser o caso de Sobrenatural.

Há duas partes distintas compondo Sobrenatural. Uma primeira, onde os medos não são justificados, dando-se de forma pura e notavelmente cinematográfica; e uma segunda, que expõe/preserva as fragilidades do dispositivo, deste simulacro do medo. De certa forma, em cada uma delas, James Wan tenta responder por esta insistência pessoal que o leva a diversos padrões de tentativas para uma reformulação do horror.

Já sabemos que para Wan não há imagem que descarte uma lógica interna de funcionamento; é pela lógica que o Medo se constrói em seus filmes (e o maiúsculo se faz necessário pelo respeito que o diretor dedica a todos os medos possíveis do cinema), e exatamente por ela é possível discernir as grandezas e fraquezas que impregnam seus trabalhos. Ora, não há lógica que resista ao cinema, isto é o que o público – e o próprio Wan, sempre determinado por este – precisa compreender para se permitir o Medo. Encarar o naturalismo de uma cena em que um homem passa creme anti-rugas é posicionar-se dentro de uma expectativa pela verossimilhança que tanto pode intensificar a identificação para com o universo filmado como pode alienar por completo todo o efeito ficcional provocado daí por diante.

Nos dois homens ‘caça-fantasmas’ inseridos na segunda parte de Sobrenatural, temos o espaço para a ironia, para a revelação da técnica, para o meio riso (o patético) que não encontrava lugar na primeira parte do filme, toda formada por contornos de sombras e sons que efetivamente concentravam no tempo (em sua dilatação) a veracidade do horror. Deste desequilíbrio, Wan oferece um dos mais rebuscados exercícios que já concluiu, responsável por cenas que não devem em nada ao rico imaginário cinematográfico envolvendo casas assombradas. Ficamos no aguardo do filme em que ele finalmente abandonará os princípios lógicos da justificação, permitindo à imagem uma liberdade que se complete pelo jogo de luzes e sombras (algo que ele aqui comprovou saber fazer muito bem); pois o Medo, como o próprio cinema, não é coisa que se possa explicar.

Fernando Mendonça

Maio de 2011


ISSN 2238-5290