Kosmos (2010, Reha Erdem)

O messias e o digital

Quando acionado o digital em Três Macacos (Üç maymun, 2007), de Nuri Bilge Ceylan, a impressão que ficou é que Ceylan, dotado de uma força grandiosa para utilizar essa possibilidade de execução cinematográfica, ultrapassou o senso de aceitação dentro da utilização do artifício digitalizado: nada naquele filme parecia tangível, era tudo exageradamente estourado, ultra-digitalizado à luz de sua narrativa alçada à superficialidade. Cometendo muitos desses mesmos equívocos, Kosmos, de Reha Erdem, não se perde completamente no abismo do digital porque, ao contrário do filme de seu conterrâneo Ceylan, consegue de alguma forma misteriosa enlaçar seu personagem a um parâmetro de proximidade (isso é, torná-lo humano mesmo rodeado de vestígios messiânicos) jamais atingido pelo filme de 2007.

Kosmos (Sermet Yesil) é um desconhecido homem que chega ao interior da Turquia e de alguma forma consegue ressuscitar um garoto que estava aparentemente morto e sendo levado pela correnteza do rio. A Irmã do garoto testemunha todo aquele momento bíblico, momento esse que se espalha pela pequena cidade instantaneamente. Seria então Kosmos um messias? O filme aponta para essa direção, mas nunca o rentabilizando como ser perfeito: há sim algo de messiânico no desconhecido homem, mas Erdem não quer criar uma divindade, longe disso, quer antes apontar para um horizonte humanamente perturbador. Kosmos mesmo com esse raro dom, é um homem à margem do mundo. O único contato verbal (ou gutural) que ele parece realmente manter é com uma menina que tem indícios de loucura – nada mais coerente.

Mas o que realmente chama atenção nesse filme de Erdem é a maximização do uso do digital, uma aposta arriscada ao mesmo tempo em que é corajosa. Porque o cineasta turco após dois belos filmes em sequência essencialmente rurais e tão longe dessa saturação digitalizada em que Kosmos parece ter se encubado, arrisca-se num filme ainda que com sua marca, dilui-se no exagero da imagem extra-diegética – as mudanças nas nuvens por aceleração computadorizada ou a Lua que se encolhe para então desaparecer não causam nenhum outro impacto a não ser o do constrangimento. O filme parece como um lindo aquário sem peixes: é tudo imageticamente estonteante, mas não há vida ali para ser observada; seu teor hipnótico deriva mais da acusação primeira dos sentidos do que da acomodação destes e como consequência, da contundente admiração que surge com o tempo de análise.

A experiência digital, essencialmente discreta, geralmente é contraposta à experiência contínua da realidade. É exatamente assim que Kosmos se porta diante do espectador: muito mais como uma experiência formalmente digitalizada do que como experiência contínua de uma linguagem cinematográfica que aqui parece ter se esquecido de seu dever: de tão digital Kosmos quase se esqueceu de ser cinematográfico.

Ricardo Lessa Filho

Maio de 2011


ISSN 2238-5290