Cópia Fiel (2010, Abbas Kiarostami)

Cópia fiel é um filme de tese, ou seja, ele não apenas trabalha com blocos de afetos e sensações visuais ou sonoras mas também é completamente autoconsciente desse trabalho a ponto de poder criar uma generalização com estatuto de declaração provada e lançada desafiadoramente num espaço público (repleto de espectadores).

É corajoso fazer um “filme de tese” no contexto atual de nosso campo artístico. Um filme assim normalmente é considerado impertinente, digno apenas, no máximo, de uma curiosidade cinéfila – que, afinal, também se ocupa dos maneirismos cheios de citações improdutivas dos filmes pós-modernos e do cerebralismo castrador de certas obras de vanguarda. As atenções devem ficar com as obras que possuam uma espécie de autonomia tal cuja força só é captada pelos sentidos e não pelo entendimento lógico.

É corajoso e, sobretudo, estranho no caso de Cópia fiel: estamos falando de Abbas Kiarostami, o artista que já foi contraposto, por Jean-Claude Bernardet, a Peter Greenaway como a antítese do artificialismo do trabalho do diretor inglês (mote do livro Caminhos de Kiarostami); que inspira toda uma geração contemporânea de documentaristas atraída pelas forças do “real”; que realizou uma das mais belas homenagens a Ozu com apenas cinco planos captados no desenrolar imprevisível das coisas (Five).

É estranho que justamente esse diretor nos apresente um filme inicialmente rígido demais e, o pior, impondo como elemento principal um roteiro de tese que funcionaria muito melhor, talvez, como um ensaio escrito. De fato, chega a ser constrangedor perceber como aqueles personagens e situações só estão ali com um único propósito: repetir as linhas da tese do roteiro. Isso leva a um mal-estar que se reflete nos cenários “artísticos” de uma Toscana charmosa e turística, que se transformam no grande clichê de um cinema de arte com, claro, Juliette Binoche tomando capuchino e uma lágrima no rosto. O que fica evidente é a tese reiterada e reforçada: não há diferença, na verdade, entre cópia e original – “melhor uma boa cópia que um original”, repete Binoche.

No entanto, esse mal-estar só dura a primeira metade de Cópia fiel. Na sequencia dos ciprestes já se começa a sentir a força do “velho” Kiarostami, já se começa a reconhecer suas figuras e reencontrar sua estética. Pois, uma vez apresentada a tese, Kiarostami simplesmente a executa. Não é apenas que o foco tenha passado do roteiro para a imagem. É que primeiro Kiarostami faz o espectador conhecer e entender a tese para depois fazê-lo viver a tese na própria sala de cinema. Agora temos um universo onde a (um tanto cansada) indistinção entre realidade e ficção ocorre em toda a sua plenitude; onde se percebe que o clichê foi o tempo todo autoconsciente; onde o real pode assomar, com seu brilho sublime, num simples gesto de colocar a mão no ombro ou de escolher um brinco (imagem sabiamente escolhida para o pôster do filme); onde a indistinção temporal reina na duração (Binoche e seu par são e não são os jovens casais que noivam e os muito idosos que passeiam e vão à missa).

O espectador pode então sentir a tese do filme plenamente não numa tela plana iluminada numa sala escura geograficamente localizada. Trata-se não apenas de mais um filme que indistingue ficção e documentário – Cópia fiel transforma-se, na verdade, num dispositivo que reconfigura ordens (imitações, cópias) e, assim, mostra que qualquer um, em qualquer tempo ou lugar, pode fazê-lo. Não é, então, simplesmente um filme; é uma janela a partir da qual o espectador pode entrar plenamente em outro(s) mundo(s). Kiarostami cria uma imagem forte da Utopia: Binoche olha a felicidade pela janela de vidro do restaurante (que é larga como uma tela de cinema). Mas é estranho chamar isso de “utopia”, pois o jovem casal de noivos a chama e ela simplesmente pode ir até lá, saindo do restaurante.

Cópia fiel não é um filme que conseguiu “salvar-se” ao mudar de estrutura na metade da projeção. Essa primeira parte do filme se transforma completamente depois que se experiencia (a palavra é essa) a segunda. Nunca saberemos se Binoche é divorciada ou simplesmente admiradora de James. Na verdade fica claro que os personagens não estão numa diegese comum – são apenas figuras ou fantasmas num dispositivo poderoso (como parece mostrar o estanho olho azul do filho de Binoche). A segunda parte precisa da primeira para existir. Cópia fiel é um belo filme sobre amor, sobre mudanças de mundos e que nos obriga a revisar o que esperamos de um “filme de tese”.

André Antônio

Maio de 2011


ISSN 2238-5290