Reencontrando a Felicidade (2010, John Cameron Mitchell)

Se há um título impossível para o novo filme de John Cameron Mitchell, ele não poderia ser outro além de: Reencontrando a Felicidade. Qualquer um pode imaginar o tamanho da maldição que tal epíteto provoca (por associar-se ao que há de mais ordinário no filão do gênero melodramático), e a bem da verdade, toda a recepção do filme tem sido unânime em apontar a impertinência do que aqui foi atribuído. Não há como fugir disso. Acusar a incompetência do circuito distribuidor pode ser não somente oportuno em termos de uma avaliação de mercado, mas também tratar-se de uma chave de leitura para o trabalho de Mitchell pela exata oposição do que temos em nosso título nacional. Pois numa apreciação imediata, distinguimos pelo menos duas incorreções advindas do título que importam ser colocadas em seu devido lugar para que se evite a diluição dos sentidos propostos pelo filme.

A primeira, mais óbvia, está na própria Felicidade enquanto substantivo ausente de Rabbit Hole (título original). Não há um só momento em toda a história do casal em cena que possa associar-se ao estado de espírito aí sugerido. Nem mesmo o toque final – belo instante conseguido pelo contato das mãos do casal – viria significar um estado de esperança nuclear referente ao ser feliz, ao menos não ao que nos importa, ou seja, ao que vemos, ao que é materializado pelo filme.

Do desfecho pela restituição do toque, profundamente inspirado no Antonioni de L’Aventura, subsiste uma constatação mórbida, um conscientizar-se das limitações, quer dos relacionamentos e pulsações vividos na trama quer na condição primeira da imagem refletida por Mitchell. Imprescindível lembrar que da concisa e intensa carreira do diretor ergue-se um cinema da aceitação, um universo onde os personagens transitam como que perdidos, errantes, pela dificuldade de aceitarem e se fazerem aceitos dentro daquilo que os constitui e motiva o prosseguimento da vida; caracteres preferidos por um diretor que significa a imagem e faz dela o lugar onde os dilemas são partilhados, identificados e tensionados como necessários para que se evite o esvaziamento do ser.

O segundo equívoco no título disposto, mais grave, localizamos no gerúndio de Reencontrar. E o absurdo aqui se impõe radicalmente, pois Rabbit Hole não é filme em que caiba o Verbo. Entreato de dores, este réquiem de Mitchell alcança a proeza de desenvolver-se sobre o não-acontecimento das coisas. A morte do filho, elemento infilmável, equilibra-se entre a memória e o esquecimento num período de tempo que decorre em meses do trágico acidente. Entramos no filme depois do acontecimento e saímos dele à espera de que algo ocorra – são estas as últimas palavras do marido (Aaron Eckhart) e do filme: algo ocorrerá, ou, alguma coisa surgirá.

Se não é possível ver, como encontrar o tempo da aceitação? Este parece ser o problema perseguido por Mitchell, que em seus filmes anteriores experimentou a ambigüidade do olhar exatamente pelo que ele pode provocar de explícito, de orgíaco. Tomemos Hedwig (2001) ou Shortbus (2006) e veremos um exemplo do que seria a dramatização elevada a uma potência máxima, a um estado do olhar impossível de satisfazer pelas extremas situações em que seus personagens se encontram. Uma poética do desnudamento. Rabbit Hole, pelo contrário, mas com o mesmo interesse, vem recobrir a necessidade da aceitação com um véu de realismo – seja pelos detalhes do cotidiano ou mesmo por esta falta de uma (encen)ação externa – que beira o anti-dramático e vira a potencialidade do clichê pelo avesso.

É por este impedimento do olhar que o casal enlutado não mais se permite o que seria esperado de uma ‘vida normal’ (conceito sempre questionado pelo cinema de Mitchell). Se eles não vêem, também não dizem, não tocam, não gozam, não sentem. Duas vidas impossíveis e indissociáveis, inseparáveis pela expectativa, pela comunicação que nunca mais se fará – é o acaso quem apaga o vídeo do filho no celular do pai –; e da incomunicabilidade retornamos outra vez ao legado de Antonioni. Como no italiano, Rabbit Hole sofre a aflição de uma dúvida eterna, de um enigma sem solução (pois nada é mais misterioso que a morte); coloca-se no centro de interesse da imagem o justo problema decorrente do corpo desaparecido, do tempo roubado, e por isso concluímos que nada é mais silenciado neste filme do que a possibilidade do Verbo.

No rigor do flahshback que estilhaça as últimas memórias do acidente com o filho (cena de uma dignidade formalista, autodestrutiva e, talvez por isso, apaziguadora) Mitchell demonstra agora acreditar que algumas coisas devem ser poupadas pela câmera, nesse sentido, é inegável o deslocamento enfrentado pelo diretor com o presente trabalho. A economia das ações sutilmente impregnadas de uma cruel lucidez por toda superfície fílmica faz com que, agora sim, haja um contraste saudável ao verdadeiro título em jogo.

Entrar na toca do coelho, subverter a lógica do mundo, vem a ser esta exata e sempre adiada maneira de aceitar o estado das coisas, mas para Mitchell aceitar não é render-se. Ao contrário, quando um gesto, sentimento, ato ou situação é aceito dentro de um filme seu, na verdade, ele resiste ao que se levantou contra si, daí a constante impressão de que a aceitação não seja consumada, de que a felicidade continue para sempre não encontrada. É difícil entender, adentrar nos sentidos deste outro lado do mundo, ao que há dentro da toca, se a conclusão nos parece ir contra ao que fora almejado. Para nós, deste lado de fora, continua mais interessante que Mitchell permaneça sem aceitar a vida, pelo menos aquela que não sobreviva pelo mistério da diferença.

Fernando Mendonça

Maio de 2011


ISSN 2238-5290