The Very Eye of Night (1958, Maya Deren)

O que são os pontos luminos em segundo plano? Faróis? Astros? Planetas? Essências? Se Faróis, a terra. Se Astros, cinco pontas. Se Planetas, cores. Se Essências, corpos talvez, talvez espectros; se Essências, a ingratidão do cosmo ao interpretar sua esteticidade leitosa, talvez de forma certeira, talvez de forma tão equívoca quanto o desejo de que a ociosidade de seu enigma senil seja agravada por qualquer coreografia d’algum início, d’alguma semente – d’algum conjunto de Essências.

Zodíaco? Olimpo? Espíritos? O que são os corpos que bailam naquele espaço? Se Zodiaco, demais fluidos, demais informes; Se Olimpo, pouco soberano, já que demais orquestrado por Terpsícore e Euterpe. Se Espiritos, houvera corpos, delícia depravada e mordaças na hidratação; se Espiritos, enfim além do céu, enfim o Cosmo apoiando a transgressão alimentada ainda na terra.

The Very Eye of Night de Maya Deren traz a dança. A dança agora compartilhada; preocupada com o esfacelamento da identidade figurativa que causa num ânimo que lhe queira encarnar; preocupada não mais com o lugar para onde pode levar, com qual faceta saciar a abstração da música. A dança que desfila autonomia, desfocando suas origens (a origem: os pontos luminos; a dança: todo um corpo). Quando três pontos luminosos, quatro corpos; quando dois pontos, dois corpos. Quando um ponto se explicita, um corpo se sobrepõe a ele, ofuscando-lhe a arredondada brancura com uma brancura dilatada, ocupante da náusea que é ser brancura sem ser forasteira na obscuridade.

No cosmo se põe a doença do infinito que é mostrar sua fome para a aventura dum espelho; assim, atingida a apoteose, ultrapassado o céu, qualquer movimento do corpo acaba em movimento artíscico, pois ele se tem cercado – além da dança, há vacilações no escultural e dramatizações no teatral. A quarta parede é o próprio cosmo, cuja enfermidade está na atitude da solidão de se fazer falência no vazio.

Ao final, o empedernimento feito ao relaxamento jovem dos corpos, a queda em poses soçobradas pela escultura, a ida ao terreno (novamente?) talvez como astros, se já não são suas origem (os pontos luminosos); talvez apenas como a tórrida e inflexivel cadência do astros que caem! Para quê as quedas? Ora, para estruturar desejos, pois não nos esqueçamos: no cosmo não há horizonte, que é donde se extrai o ímpeto de realizá-los.

Bruno Rafael


ISSN 2238-5290