Meditation on Violence (1948, Maya Deren)

Montagem rítmica

O ritmo é para Maya Deren o propulsor de seu mundo – indiscutivelmente cinematográfico –, mas esse mesmo ritmo se legitima em suas obras porque muito mais do que ser uma tentativa de aproximação entre cinema e dança é a completa absorção cinematográfica em sua plena execução: Deren recria a dança não como um simples movimento aleatório e filmado, mas como uma amplificação estética da linguagem cinematográfica. Uma grande parte de seu cinema é, então, não somente filmes sobre dança, mas, sobretudo, a exigência de sua elevação: é um ensaio sobre a imagem (e o corpo, a alma, a sombra) em movimento, é, na vera, o filme-dança, como a cineasta um dia já disse.

Meditation on Violence parece ter surgido de uma necessidade desesperadora entre o corpo e as sombras deste corpo, aqui representado pelo coreógrafo Chao Li Chi, mas que só ganharam essa dimensão estética tão elevada por causa da câmera e, principalmente, por causa da montagem executada por Deren. É uma análise profundíssima sobre o quão a coreografia no cinema não depende somente do bailarino para atingir resultados expressivos, mas também na concepção dos padrões disponíveis para a unificação irredutível dessas duas artes eternamente em marcha, pois na proporção em que a dança incute o bailarino a movimentar-se, o cinema locomove suas imagens – pois de outro jeito elas nunca seriam cinematográficas.

Essa locomoção no corpo de Meditation on Violence só é possível por causa de sua montagem rítmica, que concede ao coreógrafo Chao Li Chi minutos de flutuação, de uma execução que de tão fundida com a câmera faz parecer que não pode existir outro meio de interpretação que não seja sempre no sentido fílmico, porque ali não é uma dança coreografada e filmada, mas sim filme-dança; um novo tipo de cinema? Não, cinema de novo. É a montagem, mais do que a câmera, que guia e altera os espaços (montagem espacial?) ali contidos, numa cadência melíflua entre corpo e sombra, câmera e montagem.

Meditation on Violence é um argumento sobre a locomoção imagética e como a montagem em Deren intensificou de uma forma nova todo esse estado de beleza, de reflexão da utilização dos artifícios cinematográficos para atingir um novo patamar na criação dos movimentos de dança dentro de um filme de cinema.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290