A Study in Choreography for Camera (1945, Maya Deren)

“Se não há mais nada a dizer ou a fazer,
a dança é o último desafio lançado ao impossível.”

Henri-Pierre Jeudy

A mais curta realização audiovisual de Maya Deren, no que concentra pela leveza do gesto e de sua intensidade, convida-nos a provar uma espécie de pré-estesia, anterior aos sentidos, pois particular ao meio próprio de registro e apreensão: sensibilidades de uma câmera. O importante aqui, exacerbadas as intenções em pauta desde seus primeiros filmes, está intimamente relacionado ao que há de potencial no veículo para o celulóide, e o que este legará finalmente aos nossos olhos, o que restará do mundo. São as sobras do ato, do espaço dramatizado pelo movimento imposto, as sujeiras que acompanham toda a beleza de um nascimento. Pois para Maya, filmar é nascer.

Do corpo bailarino emanado pelo filme (corpo de Talley Beatty, reconhecido como maior coreógrafo afro-americano da história) Maya interpela ao movimento das imagens quais os sentidos possíveis para o estar do corpo no mundo. É preciso considerar, ainda dentro da breve duração fílmica, a continuidade que leva Maya a tratar o audiovisual como um lugar de experimento, de novidades à espera. A associação de seu nome aos pré-cinemas advém justamente dessa postura inventiva, para quem a criação não pode se vincular a nada que exceda a câmera. Aquilo que a aproxima de Edison ou dos Lumière é exatamente o que a distancia deles, este conscientizar dos espaços e objetos filmados, este atravessar da técnica por percepções que prescindem do movimento mundano em detrimento do que naturalmente se move na textura de uma película para cinema.

São três os deslocamentos em jogo: o espaço da natureza, o espaço doméstico e o espaço da memória – é numa espécie de museu que se dá a última dança, a que antecede o retorno ao mundo natural. Talley Beatty infiltra-se por estes cenários, flui, desvanece uma temporalidade suspensa e conecta todos os pontos (inclusive o do olhar espectador) a um denominador comum. Somos eroticamente conduzidos ao estado urgente de nascimento do ser, ao que de abstrato contorna qualquer forma corporal (vem de Kandinsky a eterna fertilidade de Maya), e como sem perceber, colocamo-nos à mercê da câmera, nós também, arremessados que somos ao movimento.

A articulação da experiência, aquilo que torna os três espaços um lugar único e o corpo solitário do dançarino numa infinidade de seres, revela o estudo de Maya como uma grande fusão, uma sobreposição de camadas ontologicamente interligadas, um movimento criador. É assim que corpo e árvores, corpo e móveis, corpo e estátuas sagradas (e do ídolo híndi no segundo plano do museu desprende-se o Feminino constante de todo o pensamento da realizadora), fundem num só gesto a coreografia exclusiva da imagem, o contato impossível.

Nesta interseção, que não deixa de se estender por toda a vida criativa de Maya, em expressões, significados e vetores múltiplos da estética, encontramos uma interioridade que, moderna por excelência, ainda nos fala e orienta tantos projetos contemporâneos do olhar. Sentimos a falta, o desconhecimento e a incapacidade diante de um filme como A Study in Choreography, pois não há movimento que esgote a realidade material das formas. (Des)Cobrimos a nós mesmos, dançando, movendo, olhando juntos, como numa primeira vez, no que o inédito carrega necessariamente de último.

Fernando Mendonça

“Se não há mais nada a dizer ou a fazer,


ISSN 2238-5290