Poéticas

Os seguintes poemas foram encontrados nas anotações pessoais de Maya Deren, atualmente preservadas no Arquivo Howard Gotlieb, Centro de Pesquisa da Universidade de Boston.

O primeiro deles, escrito quando Maya tinha apenas 10 anos de idade, deu-se no contexto de seus primeiros anos de educação, após emigrar com a família para os EUA, da Ucrânia. Os que datam de 1938, sofrem forte influência de seus estudos no Mestrado em Literatura Inglesa, onde estudou a poesia simbolista de T.S. Eliot. Já o último poema aqui exposto, vem da mesma época em que Maya dava seus primeiros passos no cinema, ao lado do operador de câmera Alexander Hammid, seu segundo marido.

A autora nunca publicou seus versos em contexto profissional.


Nunca Só


1. Nunca só! Nunca só!
Há alguém perto

A seguir-me do osso ao pó.
Eu nunca estarei só! Nunca só!

2. Pode se considerar só,
Mas há alguém perto.
Para seus segredos fácil decifrar,
Que das gavetas pode as chaves encontrar.

3. E dir-lhe-ei quem é este
Sabendo que o satisfará ouvir:
Que este é Deus, seu Deus, o Todo Poderoso Deus,
Quem de perto nunca irá sair.


Never Alone


1. Never alone! Never alone!
There’s always somebody near
Someone will follow me close to my bone.
I’m never alone! Never alone!

2. You may think that you are alone,
But there’s always somebody near.
That somebody finds out your secrets with ease,
To your drawers he has all the keys.

3. And now I’ll tell you who I mean
I know you’ll be glad to hear
That is God, its God, Almighty God,
That keeps so very near.


Nova York, Verão de 1927



Para F.M.


Aguardei você no entardecer dos campos
Olhos fechados, sobre o gramado
Escutando um som de passos no farfalhar das árvores;
Esperando que meus lábios, lábios sentissem, onde a suave brisa tocara;
O corpo tenso em perceber calor de mãos onde o calor do sol brilhara.

Você não veio. Voltei a entrar
Lamentando que o sol caíra
Que o vento esfriara
Que as árvores tanto ruído causaram.
Uma pessoa ganharia mais cochilando em casa.


To F.M.


I waited for you in the fields of afternoon’
Eyes closed, I lay upon the grass
Listening for the sound of steps in the swaying of the trees;
Waiting for my lips to feel lips where the soft breeze had been;
Body tense to feel the warmth of hands where warmth of sun had shone.

You did not come. I went inside
Complaining that the suns go down
And that the wind is far too chill
And that trees make so much noise
A person’d better take her nap indoors.


Massachusetts, 1938


Sem Título


Enquanto as chuvas a cidade inundam
E os zelozos cidadãos cumprem o dever
tentando as coisas em ordem manter
sequidão…

Eu faço água.

Enquanto escassam as águas e morre o gado
e sofro sede no limite do fim
e um pouco d’água anseio em mim –
Deus – maldição!

Ainda faço xixi.


Untitled


When rains come down to flood the town
And earnest citizens really ought’er
try to make and keep things sort’er
dry…

I make water.

When water’s rare and cattle’s dying
and I’m as thirsty as can be
and long for some water in me –
God – damn it!

I still pee.



Massachusetts, 1938


Que Se Faça Com Espelhos


Que se faça com espelhos
minha cabeça encostada no intervalo do nada.

Onde está meu corpo
onde, oh, onde?

Posso ver as pedras
nas mãos, ocultas.

Que me tragam meu corpo pra mim, pra mim,
Que o milagre retorne a ordem
antes que os espelhos quebrem.



It Must Be Done With Mirrors


It must be done with mirrors

my head that rests on nothing in mid-air.

Where is my body

where oh where?

I can see the stones

hidden in the hands.

O bring back my body to me, to me,
O miracle bring it back

before the mirrors break.

Los Angeles, Março de 1942

Traduções: Fernando Mendonça

To F.M.

I waited for you in the fields of afternoon’

Eyes closed, I lay upon the grass

Listening for the sound of steps in the swaying of the trees;

Waiting for my lips to feel lips where the soft breeze had been;

Body tense to feel the warmth of hands where warmth of sun had shone.


ISSN 2238-5290