Meshes of the Afternoon (1943, Maya Deren & Alexander Hammid)

Não há dúvidas de que Meshes of the Afternoon seja um dos mais importantes trabalhos da ucraniana Maya Deren. O porquê reside em diversos fatores que vão de sua própria narrativa, estética e à figuração da personagem. Quando ela surge na tela sob aquela perspectiva detalhista de mãos e pés é fácil para o espectador captar que algo acontecerá, mas não “como” e muito menos “para onde” teremos que perceber tais eventos. Seria um ato de suspense ou uma forma de levar a algum acontecimento?

A câmera de Maya parece carregar-se sobre o personagem e levando-a num instante a todo um emaranhado de convulsões psicológicas que chegam a uma repetição de trajeto em que a personagem se vê mais próxima de um ser que à primeira vista nos remete à morte, e que carrega em suas mãos uma flor viva. Todo aquele jogo parece absurdo quando finalmente encaramos o personagem masculino, que nos remete de alguma forma a alguém próximo ou quem sabe à figura de um marido ou companheiro.

Até que todo o trajeto se repete, mas agora com seu destino trágico onde genialmente sua realizadora exibe a vida da protagonista num grande jogo de espelhos que se quebra. Descobrimos que em nenhum momento ela saiu do lugar.

Todo esse jogo pode ser visto por alguns como mero jogo surrealista ou experimental, mas na verdade Maya figura a realidade da mulher sozinha e sujeitada à casa. Nesse sentido é mais que claro a visão trágica e crítica da realizadora sob o julgo feminino na sociedade. Tudo isso sob um ângulo genial de uma diretora que deixou um estilo e uma forma repetida e interpretada livremente diversas vezes. Forma de cinema que seria depois forjada em fórmula de vídeo-clipe, mas que sempre nos remeterá a Meshes of the Afternoon.

Nuno Balducci


ISSN 2238-5290