Ritual in Transfigured Time (1946, Maya Deren)

Percepção

Pode-se dizer que, juntamente com Meshes Of The Afternoon (1943) e At Land (1944), Ritual in Transfigured Time conclui uma espécie de “trilogia do sonho” na obra de Maya Deren. Se o melhor daquele primeiro filme reside no trabalho com a repetição e a circularidade do sonho dentro do sonho (em Witch’s cradle, 1944, há um símbolo circular dentro do qual se lê infinitamente “the end is the beginning is the end is the beginning…”) e o do segundo no modo como Deren figura, sobretudo no final, um espaço material cheio de possibilidades, habitado, paradoxalmente, por uma subjetividade cada vez mais objetiva (a própria Maya correndo em direção ao infinito da praia enquanto está ao mesmo tempo em tantos outros lugares da memória – o que Weerasethakul repetiu no final de Tio Boommee), a força de Ritual… está em presentificar na imagem duas dimensões quase opostas que coabitam, no entanto, plenamente o domínio do sonho. A primeira delas é o que se pode chamar de percepção subjetiva. O filme começa e vemos a protagonista já completamente inserida no que o título denomina “tempo transfigurado”: o tempo do sonho. Seu olhar, como depois o olhar dos personagens de David Lynch, é de estranhamento, de uma vaga desconfiança mas também de uma irresistível inércia. Vê-se, percebe-se uma imagem familiar mas ao mesmo tempo perturbadora. Para Bergson, percebemos na medida em que podemos agir. A personagem vê uma mulher – a própria Maya – sentada com um novelo de lã. Seu impulso é portanto enrolá-lo. Tudo parece vagamente bem, mas os poderes do tempo transfigurado são maiores. Se a ação foge à percepção, esta pode nos levar a lugares distantes e imprevisíveis. Tal é o projeto de Deren. É preciso partir de uma percepção subjetiva; é preciso um corpo, exatamente como naquelas pinturas românticas que tinham por projeto figurar o não-figurável: o sublime. Tais pinturas utilizavam um personagem, um corpo, através do qual, por identificação, transposição e mediação, o espectador experiencia o que a mente humana não podia representar. Em Deren, só a partir dessa percepção, desse corpo localizado e subjetivo, que se atinge as distâncias improváveis do sonho.

Frame parado

A segunda dimensão da imagem onírica que Ritual in Transfigured Time explora é a densidade incalculável do Tempo ou da Duração. Na verdade, todo o cinema de Maya Deren busca – seja através da religião, da dança ou, claro, do sonho – a força dessa dialética entre o corpo do sujeito e a objetividade insuportável da matéria móvel. Se o slow motion, a repetição e a sobreposição figural são maneiras de atingir essa segunda dimensão (Godard não cessa de utilizá-las em seus filmes, roteiros filmados e “videoartes” dos anos 80), aqui Deren se vale de outra estratégia: o frame parado. Fica claro, então, como a artista presta contas não apenas ao surrealismo. De fato, ela presentifica de tal maneira na tela aquelas perturbações típicas do sonho – o ápice de Ritual… sendo a impalpável perseguição da estátua – que o espectador por um vago momento chega a sentir que já sonhou algo parecido alguma vez, há muito tempo (são as semelhanças dos sonhos de que fala Benjamin). Mas o trabalho visual do frame parado remete Deren a outro projeto de cinema: precisamente ao de Dziga Vertov, inusitado pai de toda uma tradição de “cinema de artista” e de museus. Ora, através do frame parado, de recuos na bobina fílmica e outras manipulações que Vertov consegue realizar sua “visão comunista do mundo”, ou seja: a visibilidade de um mundo veloz e mutável onde tudo está intimamente ligado e relacionado, onde o significado da palavra “distância” inexiste. Ritual in Transfigured Time insere-se plenamente nessa tradição. Um pouco como no final de At Land, quando o frame para em Ritual… podemos sair do foco que nossa percepção havia ficcionalmente criado, da narrativa em que nos acreditávamos enredados para perceber, por um momento iluminador, quase cegante, como tudo é muito mais vasto, como outros pontos e outras percepções podem ser igualmente válidas. Pode-se sentir o peso insuportável do Tempo ou a densidade da Duração. E é exatamente o frame parado brilhantemente utilizado aqui que, junto com a narração estratégica e precisa, vai fazer de The Divine Horsemen: the living gods of Haiti – montagem póstuma de 1985 e herdeira sem dúvida dos filmes antropológicos de Rouch – um filme que mostra com uma riqueza impressionante a transcendência dos rituais (de tempo) do vodu.

André Antônio


ISSN 2238-5290