Declaração

Sento-me. Aperto o play e revejo Meshes of The Afternoon, preparando-me para mais uma vez participar de uma edição deste site. Lembro-me de praticamente todas as cenas, como marcado por brasas. Desligo. Foi na mesma noite que ela veio a mim, em sonhos, toda vermelha, a sombra na parede. Não lhe vi o rosto, a pele, mas sua marca estava lá, como em brasas. E assim descubro que se Maya Deren tivesse uma cor além do P&B, se ela fosse cor, vermelho seria o mundo.

Qualquer aproximação do universo de Maya Deren não passa de revisitação. Todas as formas de seus filmes, de alguma maneira, já assistimos em sonhos, em algum tempo que não podemos definir, que simultaneamente nos foge e insiste em permanecer. São contornos de um espaço que pulsa (há sangue nisso – vermelho), de um corpo que desperta, de uma natureza que não se enxerga a olhos nus. E minha confirmação, a certeza das presenças evocadas, completa-se no encontro dos versos, das palavras guardadas por Maya de um mundo que é perigo.

Arriscar-me na tradução de suas poéticas, ato de um ofício que não me pertence, também me foi encontrar impressões que eu mesmo escrevera, em algum lugar do tempo. It Must Be Done With Mirrors, poema gerado um ano antes de seu primeiro filme, poderia mesmo figurar como a epígrafe de toda carreira audiovisual de Maya, mulher de letras vistas, pensadas para imagens, pois mulher que sobrevive pela imagem que faz de si e das coisas. Ao reconhecer-se como poeta de extremas limitações, por pensar e necessitar da visualidade de uma cena – e de seu movimento –, ela fez dos versos esboços, faces de roteiros para um cinema que não poderia ser guiado por algo senão a poesia.

Onde está meu corpo / onde, oh, onde? / … / Que me tragam meu corpo pra mim, pra mim / … /

É o clamor que ecoa por todos os gestos, todos os filmes, todas as faltas que suas películas registram. A procura da forma, da convicção, mito original de toda uma raça impura. Vem daí sua recorrência ao que se pode coreografar, de alguma maneira controlar e exercer como meio de sobrevivência. São os acasos previstos, as coincidências do estar, permeando sinuosamente cada intenção dos planos, dos quadros que não se concluem. Porque um sonho não termina.

Perguntar pelo corpo, ente que lhe afirma mulher, antecipa (para usarmos um verbo que na verdade não cabe dentro da obra de Maya, toda esta suspensa para além de cronologias historicistas) preocupações que só entrariam em pauta no pensamento estético de algumas décadas posteriores. Problemas do corpo, do feminino, da aura, da duração temporal. Vanguardas que nunca deixam de ousar e remeter ao legado de uma artista que soube encarnar-se como forma de um tempo externo, dimensão outra, extensão de eras.

Pois não há, hoje, como pensar nesta mulher e esquecer aquilo que tão bem soube eternizar: o retrato de si mesma. Tornar-se atriz, materializar o que em qualquer outra pessoa seria abstrato, foi a saída para seu primeiro anseio, sua agonia. Mais que um símbolo perdido, da fisionomia desta mulher desprende-se uma beleza que só pode ser retribuída em palavras por meio de algo que não se distancie muito de uma declaração de amor. E é isso que faço. Que confesso.

Eu te amei. E foi vermelho. Intenso como as boas coisas da vida precisam ser. Breve. Te guardei os olhos, o cheiro, e de um jeito meu, por tornar-te minha, libertei. Porque senti o que precisavas, compartilhei a dor. Não era de um corpo, de um teto, nem sequer de um olhar. Necessitavas do tempo. Este que tateamos sem ver, que buscamos e não cansamos de perseguir. Conseguiste. Mas não te direi adeus. Pois em mim és mais que um rosto, uma sombra, uma cor. És mais que um fotograma eternizado. Tu és o tempo.


Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290