Um Ano a Mais (2010, Mike Leigh)

Um filme santo ante a precisão, e sábio ante as formosuras dos contarastes. Um cineasta forte na composição dialogal e em gerir uma intimidade que se acostumou a uma exposição alienável, por mais que sua fluência seja benévola.

Em um Um ano a Mais, de Mike Leigh não há encontros solucionadores (para benefícios ou maleficios); há convergência, e, agora, são correntes que conferem locomoção a sua estrutura onde os sentidos do abandono metamorfoseia-se parando num estado dentro do qual as emoções anseiam tomadas de fuga, os afetos relacionam as qualidades de fuga, e a vida desmorona-se durante avanços fugidios.

Mike Leigh: astúcia em armazenar as palavras em silêncios. O dito vai menos de encontro aos sentidos do que a situação do silêncio. Com a maturação disso, agora toda a excentricidade não recai no requinte do humor e nas conjugações de ironias, pois, fotografando a obediência de complexos da emoção às misturas circunstanciais e filmando o espirito verbal adaptando a demasiada seriedade dessa fotografia, o diretor faz já do humor o recanto da ironia. E nessa união, resolve a densidade.

As quatro estações que o filme abarca passam e continua-se com a condução do mesmo. Muda-se uma ou outra peça, e o mesmo conteúdo. Os rostos afastados das palavras, assumindo o espaço onde ocorre as digressões de quem assiste. Os rostos junto às palavras, assumindo pouco a pouco a dormência da fuga que encontra o tempo diluindo o espaço – ao qual ninguém assiste. Verão… outono… primavera… inverno. Nenhuma dessas estações consegue apoderar-se da filosofia do enredo. A arte é do corpo. O tempo já tem a eternidade, cuja natureza, no fim de contas, pertence também à arte, só que então a arte sem o corpo; assim, esse surge como o argumento de Mike Leigh: o tempo fora do corpo, pois este já viveu o tempo suficiente para saber-se mortal – no entanto, o corpo sem mais tempo, ainda vive o tempo.

Bruno Rafael

Junho de 2011


ISSN 2238-5290