Xeque-Mate (2009, Caroline Bottaro)

É quase um cinema. Quando a camareira Hélène (Sandrine Bonnaire) assiste, sorrateira, o casal de hóspedes americanos jogando xadrez na sacada da suíte, é como se fosse representado o ato de uma revelação, de uma descoberta íntima capaz de alterar toda a organização de uma vida; epifania que ocorre, como dito, diante da tela. Para Hélène, aquela janela aberta ao mundo, invadida pela luz e o contorno das formas que sutilmente se ofertam além da cortina fechada, é uma tela de cinema, uma iluminação. Não por acaso, o romântico casal é apreendido em fragmentos, entrecortados pelo olhar da serviçal, aproximados, contornados, decupados, por uma maneira de ver (erótica) que só poderia associar-se ao nível da significação cinematográfica.

A sensibilidade de Caroline Bottaro na introdução de Xeque-Mate (introdução de carreira, sendo este seu primeiro longa-metragem) denota uma consciente utilização dos recursos de sua linguagem, o que garante a obra como uma iniciação às imagens do mundo. Todo o delineamento da personagem motora, mulher de desejos que só se permite descobrir o prazer da realização a partir da descoberta deste que é dos mais complexos jogos de raciocínio, é conduzido por uma mise en scène que também parece beneficiar-se do véu. Pois das mais brilhantes soluções encontradas pelo primeiro ato de Xeque-Mate, importa colocar a presença da cortina como a maior e mais profundamente relacionada a todo o fato fílmico aqui obtido.

É deste véu que se desprende o enigma, a potencialidade do mistério indissolúvel. O olhar proibido de Hélène, ultrapassando as expectativas de uma voyeur involuntária, responde pela transformação posteriormente sofrida por esta mulher, pela não conformidade que despertará em seu coração, seja em relação ao seu nível social, ao seu infortúnio materno de amparar uma filha envergonhada pela pobreza, ao seu casamento desgastado pela esmagadora rotina do Eros vencido, ou mesmo em sua necessidade de reencontrar um motivo para existir. Atravessar o delicado tecido daquela cortina com o olhar é sua forma de não morrer.

Da certeza simbólica que aqui apontamos desprende-se uma confirmação, infeliz, que termina por comprometer todo o resultado de Xeque-Mate. Prosseguindo o enredo como um jogo paralelo e natural do ofício, Bottaro parece apostar no movimento errado das peças, diluindo parte das qualidades iniciais e confessando sua posição de aprendiz. Entre as intermináveis regras lecionadas pelo filme sobre o núcleo do xadrez, ouvimos que um único passe errado pode destruir toda a arquitetura lógica de uma partida, e sendo o cinema um equivalente do jogo para o olhar, não resta dúvida de que a diretora, em algum momento até difícil de determinar, jogou muito mal.

Pior do que perder um jogo é vê-lo sendo perdido e não poder fazer nada para reverter a situação. A consciência do erro é tamanha dentro de todo o desfecho de Xeque-Mate (e não nos referimos somente ao final do filme, mas a todo um período de tempo que cobre mais do que sua última metade) que somos obrigados a ver a beleza do véu – a peça que não podia ser movida – sendo brutal e conscientemente rasgada, numa breve cena em que Hélène abre a mesma cortina para continuar a limpeza. Dissolvido o poder da metáfora inicial, sentido o sabor da derrota, após este gesto acompanhamos uma promessa rendendo-se ao que de mais acadêmico pode ser feito dentro de um filme, o que não deixa de ser irônico, já que para o cinema tudo não passa de uma aposta.

Fernando Mendonça

Junho de 2011


ISSN 2238-5290