Simon Werner Desapareceu (2010, Fabrice Gobert)

Irrompe o travelling. Sem aviso prévio, somos lançados dentro da experiência fílmica – de um filme que só deixa ver as metades das coisas – e desde sua primeira meia imagem compreendemos que as ações importantes já se passaram. Para o truncado enredo de Simon Werner Desapareceu esta condição de evento passado (e por isso não visto, não crido) confirma-se a partir do imediato encontro de um corpo que promete ser o de Simon, jovem desaparecido, encontrado morto no meio de uma floresta. Para o movimento que inaugura a assinatura de Fabrice Gobert (egresso de produções televisivas) dentro do cinema é a própria virtuose da câmera quem confirma uma condição de passado para seu longa de estréia.

Mais uma vez, é abrupto o travelling que acompanha uma das jovens protagonistas percorrendo uma rua, na escuridão da noite. É seco, direto. É o que abre e limita o filme a um lugar deslocado do tempo histórico; não da história que contextualiza todo corpo jovem ocidental como um reflexo do modelo dominante, midiático, publicitário, mas da história particular ao cinema, aqui evocada e ignorada de maneira incongruente. Assim como a bela jovem (Ana Girardot) entra em cena depois do desaparecimento de seu misterioso ex-namorado, o travelling referido faz questão de se colocar como posterior a outros: posterior àqueles de John Carpenter no seu jogo de ocultamento/desvelamento das identidades, sejam elas vítimas ou criminosas; posterior aos que Gus Van Sant esculpiu a partir do esvaziamento de uma juventude high school que precisa esvaziar o mundo para se afirmar; posterior a própria negação do movimento que fez Wes Craven fundir a imagem do jovem em crise a uma crise intrínseca ao estado da imagem contemporânea.

Todos os nomes de influência para o juvenil (em todos os sentidos do termo) trabalho de Gobert, advém de uma mesma fonte original, repetida e propositalmente enfatizada pelo discurso vivido, em gestos, ações e pensamentos, dos jovens que transitam em seu filme: especificamente, a fonte do cinema americano. Ao se esforçar num exercício de sátira e conscientização deste cinema operando um filão de gênero mui caro a esta mesma juventude, Gobert parece se esquecer de que o cinema evocado também é dono de evocações. O curioso, de fato, não é constatar uma referencialidade passional por um novo nome que precisa dialogar com outros para se estabelecer e, sob alguns aspectos, surte efeito em sua intenção (muito mais pelo roteiro, é verdade). O problema maior parece estar no recebimento deste trabalho, na maneira como todo um aparato crítico decide ignorar um passado referencial para celebrar o que, em essência, não passa de um monólogo.

Assim como, para sobreviver (ao menos economicamente), o cinema americano tem esgotado todas as releituras possíveis dos outros cinemas mundiais, enquadrando os olhares estrangeiros dentro de um mesmo perfil de consumo, agora são estes outros cinemas que percorrem a via de mão dupla, sem a justificativa financeira da sobrevivência e, por isso mesmo, ainda mais insignificantes. Ver o cinema francês inserindo filmes como Simon Werner em seu cenário de premiações, apostando em nomes como Fabrice Gobert para as promessas de seu futuro, é chorar um cinema que sofre de forte amnésia, num esquecimento pelo que esse mesmo cinema trabalhou, décadas atrás, dentro das mesmas temáticas (juvenis) e situações (estréias de novos cineastas). Infelizmente, junto com Simon, quem corre o risco de desaparecer é a própria memória do cinema.

Fernando Mendonça

Junho de 2011


ISSN 2238-5290