Chantal Akerman, de Cá (2010, Gustavo Beck & Leonardo Luiz Ferreira)

É preciso, numa guerra, ter a sensibilidade de reconhecer os momentos adequados para o ataque, para a defesa e mesmo para a espera. Fazer valer uma estratégia e extrair dela um resultado vitorioso exige o tipo de disciplina que somente uma perspectiva treinada é capaz de obter. São os entraves de uma decisão, do ato que se pede consciente, da coragem que ignora a possibilidade do erro e que, por esta valentia, pode deslocar todo um contexto de mundo numa direção até então imprevista, mas talvez, e preferencialmente, desejada.

Chantal Akerman, De Cá, dispositivo de batalha dentro do cinema contemporâneo, reposiciona toda a lógica de uma estratégia do olhar no tempo, inverte as expectativas ora alimentadas e restitui ao fluxo da permanência a validade de uma proposta que, desde os Lumière, pouco foi alterada: encontrar no mundo a verdade de um movimento. Filme-de-fogo, comprovamos agora que o cinema não foi desarmado, que a violência sempre pode ser feita com uma câmera, que a força de um gesto ainda pode definir o futuro.

O admirável trabalho de Gustavo Beck e Leonardo Luiz Ferreira, aproveitando-se estrategicamente da passagem que a cineasta belga Chantal Akerman faria pelo Brasil, no início de 2009, para uma retrospectiva de sua filmografia, toma corpo na duração de um único plano, rigidamente executado por volta de 60 minutos, onde a artista é entrevistada a respeito de sua carreira. No jogo de compor seu quadro cinematográfico à sombra do imaginário akermaniano (um plano com margens definidas, simetricamente recortado pelo quadro dentro quadro e a proveniente repetição de formas daí conseguida), os realizadores estabelecem uma espécie de arena para o confronto dos pensamentos então revelados: de Akerman para com os entrevistadores, de Akerman para com sua própria motivação e subjetividade, de Akerman para com todo o meio cinematográfico – ou seja, do cinema para com o cinema.

Na opção de abandonar a cineasta a uma série de desconfortos (uma cadeira dura, a exposição das câmeras, a proibição do cigarro e mesmo sua obrigação de servir-se sozinha para beber água), localizamos um reflexo das mesmas inflexões que o público de Chantal sofre diante de seus filmes. Não há conforto numa imagem de Chantal Akerman. Isto é o que transforma a proposta deste documentário num ato de vingança, mas também confere à presença da diretora seu terreno comum de investigação, tudo aquilo que ela procura como resultado de uma filmagem. E é ao perceber as regras do jogo que Akerman deixa de ser um corpo abandonado dentro do quadro para tornar-se matéria bruta do movimento no tempo.

Assim como, nos filmes de Chantal, vemos mundos serem organicamente encarnados e corporificados a olhos nus, no filme dos jovens brasileiros é a própria Chantal quem se revela mundo. Seu corpo, sua voz e até mesmo o conteúdo de suas idéias parece responder ao anseio dos Lumière, conferindo ao espaço vazio toda a fleuma criativa de um universo que não cessa em expandir-se, em afirmar-se visível, em contaminar o outro lado da tela – e não importa se o lado de lá ou de cá – com reflexos que beiram o infinito.

Quando questionada a respeito do tempo enquanto valor máximo de seus filmes, Chantal responde com simplicidade: “mas o tempo é tudo que temos”. Simples como piscar os olhos, como respirar, como gozar a vida pelo que ela nos rouba e nos dá sem que peçamos. O princípio de uma aceitação. O motivo de uma resistência. Encontramos os ecos desta filosofia da imagem experimental (sim, na primeira pessoa: nós, que agora mesmo nos debruçamos sobre outra mulher-tempo do cinema) como um responso ao que, de certa maneira, tem destruído toda uma forma de ver.

Na dificuldade de Chantal em encontrar nomes do presente (são citados apenas Gus Van Sant e alguns casos taiwaneses e tailandeses que ela mal sabe definir) capazes de fazer valer o que o passado de Murnau, Dreyer, Bresson e Godard (para ficarmos novamente nas citações dela) foi capaz de segurar do mundo, dizemos, de prossegui-lo [o mundo] em imagens de permanência; é neste problema de reconhecimento do tempo presente que confirmamos Chantal Akerman, De Cá como um precioso e definitivo gesto de combate para o cinema de hoje.

É porque o cenário de produção atual continua, sob tantos aspectos, organizando-se dentro de zonas de conforto que abracem a falsa diversidade dos cinemas (comerciais, de gênero, alternativos, especializados, todos esquecidos da mesma origem que os concebeu), que um filme como Chantal Akerman, De Cá ganha ainda mais relevância, mesmo se dono de um espaço quase inexistente de exibição. Ter a oportunidade de assisti-lo (esperança que temos, torne-se menos rara com o passar do tempo) é ser brindado com a convicção de que ainda nos resta o tempo, e enquanto ele for nosso, há muito a ser feito.

Fernando Mendonça

Junho de 2011


ISSN 2238-5290