O objeto cinematográfico

Na escala em que se impõe o melodrama como forma clássica para que a sociedade registre seu temperamento moral, ao mesmo tempo em que as suas convicções mais íntimas super-dimensionam o drama ali introduzido para expressar a fixação na dor, na opulência das paletas da imagem melodramática que não reduz sua aura de encantamento às lágrimas que regem o (melo)drama; é então Mildred Pierce uma dupla jornada de expiação: do reconhecimento do próprio melodrama como único signo mitológico possível para a redenção de sua protagonista homônima e também a transformação de um filme de cinema de cinco horas para dentro do projétil televisivo – uma escolha mais do que acertada.

A obra literária escrita por James M. Cain, antes de ter sido filmada para a televisão por Todd Haynes, foi a substância do maravilhoso Almas em Suplício (Mildred Pierce, 1945), de Michael Curtiz. Porém, Curtiz e o roteirista Ranald MacDougall adicionaram um elemento que mudara substancialmente a narrativa cinematográfica quando comparada à narrativa literária: adicionaram um assassinato (o que à época não foi nenhum absurdo, tendo em vista que Cain ao lado de Dashiell Hammett e Raymond Chandler formaram a tríade do romance policial americano). Haynes é menos ousado: segue com extrema firmeza e contenção a dimensão que Cain propusera em seu romance.

É o título da série que entrega já na apresentação a força, a dor compulsiva de sua protagonista Mildred (uma hipnotizante Kate Winslet): a personagem ao longo dos cinco episódios passa por vários tipos de sofrimentos, mas nenhum tão terrível quanto o de enfrentar em dois momentos distintos as perdas de suas duas filhas: da caçula por uma misteriosa tuberculose e da mais velha por ter se tornado ao fim da narrativa, tudo aquilo que ela própria sempre repudiou. Na realidade, Mildred a renuncia, essa renúncia vem carregada de desprezo e lágrimas, mas é o bem maior do protótipo melodramático, pois essa negação é aqui sinônimo de amor (da filha que poderia ser algo que a mãe jamais pôde), de bondade implicada e esses são valores essencialmente matriarcais. O amor de Mildred por tudo aquilo que a ronda é também o motivo de suas dores e mágoas mais profundas: o amor à respiração alheia até a impossibilidade de conter o desejo da carne com o bon vivant Monty Beragon (Guy Pearce).

A imagem feminina que jorra na câmera de Haynes é o seu principal fascínio, ou melhor, usar essa imagem essencialmente feminina para construir o melodrama nas asas fusionadas de Sirk e Fassbinder: essa eterna espera pelo salto involuntário da dor que só pode vir a surgir no melodrama por definição, aquele que não teme amar, que não teme morrer de amor, que não ousa envergonhar-se da beleza do mundo que lhe é único e intransferível. Haynes, um artesão de carteirinha, debruça-se por completo na alma do melodrama. Não há vergonha em assumir seu papel lacrimal, suas imagens são consoantes e vogais de um tipo de cinema norte-americano que parece não mais existir (um cinema já demasiadamente rude e castigado pelos bilhões de dólares); Haynes sabe que o cinema que lhe afeta é o cinema do tempo indefinido, o cinema de outrora que na imagem de suas imagens jamais poderá ser rotulado de antigo – o “clássico” é, então, a única definição que sobra para gerenciar o seu Mildred Pierce.

Então “clássico” sendo, Mildred Pierce é o espaço que parece não mais existir dentro da cinematografia hollywoodiana; do próprio conceito dos efeitos especiais à falta (espacial?) da execução formal dos filmes: na série de Haynes há corredores, há janelas, há o silêncio e as lágrimas que ali existem para corroborar toda uma faceta suprema de um tipo de cinema (sim, aquilo não é televisão, é cinema) que necessita da elevação de uma série de acontecimentos para existir. O cineasta enfrentou uma série de riscos com uma série televisiva (ora, na bitolada compreensão capitalista que é necessário sempre mais status, voltar para a televisão americana quando uma carreira já está consolidada em Hollywood é um ato de extrema coragem), mas como artesão, como um orgulhoso contador de melodramas que ele é, realiza com Mildred Pierce uma apaixonada releitura cinematográfica pela imagem hipnotizante da mulher que não sabe fazer outra coisa da vida a não ser amar – e eis então o objeto mais extraordinário de Mildred Pierce: o melodrama cinematográfico on TV.

Ricardo Lessa Filho

Junho de 2011


ISSN 2238-5290