A mãe… E a mulher

Mildred Pierce, a mãe, precisava de mais terreno para que a função intuitiva do clima valorizasse seu complexo, oferecendo-lhe qualidade na verossimilhança ao passo que retirava da trama pendores estilísticos que visavam apenas aplicações nas sobras de cadência da aderência.

Todd Haynes em Mildred Pierce faz do dogma do estilo e condensação que percorre a fama da obra a humanidade que se acha no equilíbrio elaborado para caber num paradigma. Para não extenuar a densidade aliciada na condensação, o diretor se solidariza com a síntese desde que ela reaja fora do cotidiano. Assim, a densidade e a síntese, essas duas efígies da condensação, reconceitualizam o encalço da tragédia e o amargor da convicção.

Tudo o que Haynes mostra, afinal, é que Mildred não mantém inalterados os sentimentos que impulsionaram sua convicção, ruptura com a inépcia da vida, e a tragédia, governante de porções apoteóticas da vida. O foco dela, como o de todos, carrega a implacabilidade das ramificações. Um sentimento dela, como o de todos, desmantela-se e não fica encenável por nenhuma continuação regeneradora, porque, como o de todos, quando fendido, consegue chegar até onde o amadurecimento envolve o amorfo e o informe num ritual de aversão por todas as bases.

No filme de Michel Curtiz, Alma em suplício, adaptação cinematográfica da mesma obra de James M. Cain, Mildred, após voltar de um encontro com Monty Beragon, acompanha sua filha morrer, filha a qual contraiu pneumonia na sua ausência. A partir daí, a intensidade que havia pelas ramificações remodela a direção de sua força. Esse é o momento onde o estilo específico aplicado na atmosfera se junta ao foco retilíneo para satisfazer a discórdia entre a condensação e o tempo. O primeiro responsabilizando o estilo pelas adaptabilidades; e o segundo desestimulando o foco da trama – ao cristalizar nesse foco a personalidade que o vivifica.

Em Mildred Pierce, a minissérie, sente-se o tempo a ir de encontro a Mildred, a mulher e mãe; ele que lhe tirou uma filha e modelou a outra para que chegasse a tocar-lhe tanto instintos maternais quanto aqueles que se fundam sobre iras, vaidades e infantilismos. A intolerância e a inconfidência através de Todd Haynes reconhecem as explicações que o tempo dá ao complexo humano. E o complexo humano, através de Mildred, a mulher, enfim traduz a levedura do tempo sobre os sentimentos, não se vulnerabilizando ante nenhuma traduzibilidade passante.

Bruno Rafael

Junho de 2011


ISSN 2238-5290