Homem ao Banho (2010, Christophe Honoré)

Eis o corpo.

Matéria prima do desejo cinematográfico, ponto de origem para o recorte do movimento, consuma-se dentro do novo trabalho de Christophe Honoré certa alteridade de expectativas ao que se convencionou do tratamento dado pelo cinema (não só o de Honoré) ao corpo humano. Do Homem ao Banho que enxuga sua pele na privacidade violada de um banheiro que agora é palco, desprende-se o único movimento possível, sob o olhar de um espectador que se despede. Mas para mensurar a tristeza de uma despedida, de um filme do adeus, importa uma breve observação aos dois nomes que, juntos, assinam este agonizante vetor de destruição ao interesse voyeur da imagem.

Honoré, prolífico diretor do cinema contemporâneo, atualiza aqui várias questões presentes em sua carreira, das quais nos interessam mais aquelas que tocam o corpo enquanto objeto de memória e desejo. O motivo polemizante da nova obra, pautado pela aparência incongruente ao que ele até então construíra, na verdade não encontra muita justificativa, pois sob todos os efeitos, Homem ao Banho é o mesmo cinema melancólico, genérico e saudoso, tão caro ao universo de seu autor. Nas pegadas deixadas pelo homem molhado, imagens etéreas e efêmeras de um corpo que passa e custa a imprimir sua marca; preocupações de um cinema que luta por não se esquecer, de um tempo que por demais se preocupa com o passado e um artista que transita num senso histórico cada vez mais impalpável, indefinido.

Mas se alguém merece crédito junto ao diretor pelo resultado conseguido no filme, este não poderia ser outro além de seu protagonista: o corpo de François Sagat. Nele, Honoré encontra a fúria almejada de seus trabalhos anteriores, outrora vinculada ao corpo de outro homem (Louis Garrel) que aqui não poderia ser evocado enquanto presença material da imagem. Como dito inicialmente, Sagat é a alteridade necessária, o desvirtuamento da rotina fílmica e do olhar público, estampando em cada centímetro de pele a obrigação de um gozo que não pode ser alcançado antes que seu personagem reencontre o amante distante – o que nunca ocorrerá, de onde nunca gozaremos.

Emmanuel (nome de Deus), nome de Sagat no filme, não substitui completamente o nome de seu corpo – SAGAT, tatuado em grandes letras no antebraço esquerdo – alterando o princípio da ficção e confirmando a presença deste homem específico como o único possível ao filme. Vem daí a diluição do nome, a desfiguração de um corpo que, a cada minuto de projeção, perde mais de sua frágil identidade para tornar-se a trágica certeza de uma ausência. Ser abandonado pelo homem que ama (e muito importante, o sustenta financeiramente) transforma sua existência numa grande interrogação, pois somente a partir disso a descoberta de que existir não é pensar, mas sim encarnar-se na perfeição de uma forma, surge como revelação e enfrentamento de todo o filme.

Em uma das inúmeras entrevistas que mobilizou Sagat como fetiche, inclusive para o olhar crítico dos festivais de cinema, o ator declarou: “Falar é uma experiência nova para mim”. Muito mais do que às dificuldades associadas ao seu exercício dentro do gênero pornô (ao qual não acreditamos como de seu passado, já que enquanto viver o corpo de Sagat será um corpo pornográfico), a confissão feita parece esclarecer ainda mais o projeto de Honoré como outro passo em sua luta contra o esquecimento do cinema. Talvez venha daí o incômodo que habita a duração de Homem ao Banho. Encontrar o corpo perfeito e adequá-lo a um novo habitat onde as coisas são, além de vistas, ditas, é quase referenciar um cinema que abandona o silêncio, que deixa de ser mudo, mas não sabe o que fazer para se ouvir.

Se o movimento da toalha sobre o corpo, no início, é o único possível em todo o filme (advindo de uma atualização estética de uma tela do séc. XIX, homônima, de Gustave Caillebotte), isso acontece porque somente esse gesto é visto sob um olhar de amor. Para Honoré, continua valendo a premissa de que uma imagem só se completa a partir do afeto. Com a separação dos amantes, a memória roubada, Homem ao Banho encerra na perda da solução original, numa nova destruição de um desejo não realizado, incompleto. O desaparecimento de Sagat quando do retorno de seu amante é o mesmo que faz todo o filme desaparecer pouco depois de seu fim. Fica a fragilidade da memória impossível, o gosto amargo do coito interrompido, a estagnação de um movimento aprisionado em prateleiras empilhadas na parede.

Fica o corpo.

Fernando Mendonça

Julho de 2011


ISSN 2238-5290