Água para Elefantes (2011, Francis Lawrence)

Uma questão de (des)química

A questão da mobilidade da encenação destrói todo o promissor interesse deste Água Para Elefantes, porque o filme, ao contrário do que o título faz parecer, é construído através de um triângulo amoroso entre Jacob Jankowski (Robert Pattinson), Marlena (Reese Witherspoon) e August (Christoph Waltz), mas a frustração se dá justamente no cenário onde deveria ser a maior arma do filme: não é possível corroborar em nenhum momento com a tríade de atores porque suas atuações são tão destoantes a priori e frígidas quando compartilhadas que somente resta ao espectador apreciar com louvor o imenso esforço do diretor Francis Lawrence em conceber uma construção narrativa minimamente decente mesmo com essa desquímica erguida entre os protagonistas.

O filme se passa em plena Depressão norte-americana: o estudante de veterinária Jacob fica desnorteado após a morte dos pais em um acidente de carro e sabendo que só herdará dívidas, foge da faculdade e de sua cidade natal. Encontra nessa caminhada sem rumo o circo dos Irmãos Benzini comandado com mão de ferro por August e que tem em Marlena a sua musa e atração principal. Logo se percebe que existe uma atração, um fascínio entre Jacob e Marlena, que é casada com o dono do circo. Pronto. O triângulo amoroso formou-se, mas mesmo formado, não justifica em nenhum momento a dose dramática que a narrativa tenta compartilhar: Pattinson não consegue executar outra fisionomia que não seja a do vampirinho adolescente, num misto de quem chupou limão e não gostou, mas precisa invariavelmente inserir contrações faciais para ainda permanecer “sexy” em um papel que precisa de tudo, menos do simbolismo sexual de sua atuação. Witherspoon permanece morna o tempo todo – ela chegou afirmar que sentiu nojo ao beijar Pattinson em uma das cenas em que ele estava gripado – e sobra para Christoph Waltz (sim, ele merece ter o nome e o sobrenome escritos nesse parágrafo, ao contrário dos outros) a dimensão mais interessante desta tríade, muito mais pelo explícito resquício de seu Coronel Hans Landa do espetacular Bastardos Inglórios (Inglorius Basterds, 2009), de Quentin Tarantino, do que propriamente de August; Waltz atua em Água Para Elefantes no modo Hans Landa: brutal, sarcástico, bizarramente divertido ao seu modo, e como no filme de Tarantino, rouba a maior parte das cenas em que aparece, mas que se funciona individualmente, seu talento solitário não consegue cobrir as lacunas de Pattinson e Witherspoon quando a dupla está na mesma cena.

Na realidade, o único que conseguiu alcançar o nível de Waltz em interpretação no filme foi o veterano Hal Holbrook, que faz o velho Jacob: uma pena notificar que os dois atores não puderam contracenar juntos (já que no tempo narrativo do filme era algo impossível). Holbrook em alguns segundos com seus olhos faz emergir mais amor a uma foto de sua amada do que jamais Pattinson conseguiu transmitir à Whiterspoon durante quase duas horas: uma questão não só de química, mas do velho talento – ou reversivamente, na falta de talento do jovem em questão.

Ricardo Lessa Filho

Julho de 2011


ISSN 2238-5290