A Garota da Capa Vermelha (2011, Catherine Hardwicke)

Metamorfose “adulta”

A contemporaneidade é uma quimera: pouquíssimas são as coisas, os artefatos, os espíritos que resistem à sua cobiça devoradora. Filha legítima do tempo, tudo ao seu olhar parece ter de ser obrigatoriamente redesenhado, redefinido. E assim é com A Garota da Capa Vermelha, de Catherine Hardwicke (diretora do intragável Crepúsculo, Twilight, 2008): ao se basear na história da Chapeuzinho Vermelho, modifica seus sinais infantis na tentativa de torná-los mais obscuros, num tom mais jovem-adulto em preferência ao infanto-juvenil.

Esse cinema de força retrógrada, de saliência demasiadamente juvenil para exercer minimamente qualquer encanto – encanto esse que a série Harry Potter consegue com imensa eficiência transmitir ao seu público alvo –, tomba em suas frustradas tentativas de inserir em sua narrativa elementos “crescidos”, mas sua objetividade é arremessada ao espaço: não há nada em A Garota da Capa Vermelha que valha o esforço cinematográfico de quase duas horas. Está ali, no tom básico da fotografia dos filmes medievais, na discrepância sintomática da história na qual o filme supostamente foi inspirado, a sua esterilidade: supor que uma história seja adultamente metamorfoseada, não implica necessariamente na eliminação de sua pureza, pelo contrário, é na linha pueril da história original que reside sua força atemporal – e por assim ser, não existe contemporaneidade capaz de superá-la, pois estará sempre acima, sempre a frente. Hardwicke ao invés de tentar fazer um novo Crepúsculo adotando uma metamorfose adulta para a história infantil em seu filme, deveria ter se deixado levar pelo fascínio do tom fabular, pois é aí que reside o melhor confrontador da contemporaneidade: ser genuíno.

Ricardo Lessa Filho

Julho de 2011


ISSN 2238-5290