Les Enfants Désaccordés (1964, Philippe Garrel)

Este curta-metragem, primeiro filme de Philippe Garrel, é tanto mais interessante quanto consigamos perceber nele não um trabalho exatamente maduro com a forma, mas, espantosamente, a raiz que é em última análise a causa desse trabalho nos melhores filmes da obra de Garrel, raiz que nunca o abandonará, que sempre esteve lá.

O roteiro é sobre crianças que, por uma espécie de revolta meio incompreensível, fogem da casa dos pais em uma cidadezinha. O foco é um casal de amigos que perambula pela cidade, num ócio frouxo e modorrento, sem rumo. Ao fim, o rapaz morre – como acontecerá tantas outras vezes nos filmes futuros de Garrel – antes de reclamar do tédio mortal em que mergulhara.

Já estava tudo aí, portanto: o gosto neo-romântico pelo tédio, pela morte (o estado “desacordado” é mais interessante que a vigília consciente), pelo martírio e pelo pathos da revolta tipicamente juvenil. Na forma, talvez a semente da mistura entre registro despojado e algumas imagens mais pictórica e/ou oniricamente construídas, mistura que dará prova do gênio de Garrel em trabalhos posteriores.

Fato curioso: a cópia deste filme que circula pela internet foi gravada de uma transmissão televisiva que exibiu o curta dentro de um programa onde um apresentador entrevista o muito jovem Garrel sobre seu filme. O cineasta estreante é tímido, sério, lacônico, às vezes com uma ironia ingênua no canto da boca e quase durante toda a conversa contradiz o simpático apresentador respondendo quase que com frieza ao interesse dele pelo curta.

Esta cena me lembrou uma outra, também em preto-e-branco: François, interpretado por Louis Garrel (muito parecido com o pai nesse registro televisivo) em Les Amants Réguliers (2005), poeta e participante das lutas de maio de 68, é condenado num tribunal por não ter se alistado no serviço militar obrigatório. Seu advogado o defende, argumentando que nem Rimbaud nem Baudelaire haviam ido para o exército e o modo de François contribuir com a grandeza da França era se dedicar a seus poemas. François, cercado, carrega em si uma forma de ordenar as coisas completamente diferente dos discursos tanto de seus algozes quanto de seu defensor e muito parecida com a de Rimbaud e Baudelaire.

As cenas são muito parecidas. Acontece que Garrel, o pai, não está num tribunal que é reconhecido explicitamente como tal. Está na ditadura do sorriso dos meios de comunicação de massa e da aceitação tácita, bem-educada e tranquila da ordem existente. A essa felicidade do simulacro, Garrel responde corajosamente com sua postura e, sobretudo, com seus filmes sobre o desregramento e a morte como resistência radical.


André Antônio


ISSN 2238-5290