La Cicatrice Intérieure (1972, Philippe Garrel)

Em algum lugar Jacques Aumont comenta que é a própria cultura de massa que leva às pessoas histórias sobre viagens no tempo, sobre estar em vários lugares diferentes num mesmo instante, sobre ser outra pessoa sem deixar de ser você mesmo. É ela que, aparentemente, instiga as pessoas a imaginarem esses possíveis distantes. E é por isso que os artistas que criam a partir de e com os elementos da cultura de massa são tão interessantes. Eles tiram essa vocação utópica do imaginário coletivo das amarras do mercado e do sistema de regras que ela deve obedecer num mundo que divide o tempo do lazer e o tempo do trabalho; o tempo da seriedade e o tempo da frivolidade. Com La cicatrice interieure Philippe Garrel se insere na tradição desses artistas.

O cenário do filme é uma terra ao mesmo tempo arcaica, sem qualquer sinal de prédios construídos pelo homem, e mítica, com sinais mágicos de fogo em pleno solo coberto de gelo. Assim, as figuras que nele perambulam são ao mesmo tempo antigas e míticas, com roupas de heróis e princesas ou nus com uma bolsa de flechas nas costas, pastores guiando rebanhos ou homens a cavalo portando espadas. Todos esses elementos podem ser comuns em filmes (ou quadrinhos ou o que seja) do gênero “fantasia”, mas em La cicatrice interieure Garrel destrói a própria ideia de gênero com suas hierarquias e regras e trata com completa seriedade o que hegemonicamente deveria ser tratado superiormente como infantil ou simplesmente divertido. Como ele faz isso e quais as consequências?

Um elemento aqui é decisivo: o tempo. Aprendemos bem com Deleuze (que por sua vez aprendeu bem com Bergson) que a imagem tem muitas, infinitas camadas. Nunca poderemos explorá-las em profundidade se, num esquema sensório-motor, passarmos à próxima imagem que se liga imediatamente a esta que estamos vendo. A ação do tempo e os poderes da memória são necessários num deslocamento que aponta para o interminável daquilo que estamos vendo. Assim, se a questão é fantasiar, imaginar, ver muito além do que a imagem rapidamente à primeira vista nos mostra, recorramos ao tempo: os planos de La cicatrice interieure são muito longos e seu poder advém justamente da persistência da imagem, que vai se transformando na tela e na consciência dilatada do espectador que viaja. Não se trata, assim, de ver na tela um sonho impossível na vida real apenas para se distrair.

Nessas imagens de temporalidade desafiadora, necessariamente enxergamos aqueles elementos de “fantasia” de outra forma. E na distância da miragem pictórica sentimos a concretude mesma da realidade. Ouvimos também a música de Nico, que atua no filme. Essa música de tom bíblico e épico (do álbum lançado dois anos antes do filme, Desertshore) também contribui para tornar a temporalidade dos planos densa e complexa, ao justapor na mesma imagem música de vanguarda e princesas etéreas atemporais. Garrel já nos havia mostrado algo parecido em Le lit de la vierge (1969) e sua mistura pop de referencias religiosas e rock. O tempo de La cicatrice interieure não é, então, apenas um tempo diferente do cotidiano “real” que levamos a sério, é uma mistura complexa de todos os tempos existentes; é uma perspectiva temporal onde essas divisões arbitrárias que hegemonicamente guiam e controlam nossa imaginação ainda nem foram feitas.

Outro elemento decisivo: as imagens sublimes de uma natureza jovem e muito vasta. Elas acabam por criar uma atmosfera típica da imponderabilidade do sonho. A mise-en-scène tende, no limite do peso do tempo na duração do plano, a mostrar os corpos dos atores pequenos nesse espaço infinito: amplos desertos, rochas escuras, um mar revolto, um céu com nuvens ameaçadoras e o som de trovões ao longe. O ser humano se sente ínfimo, parte mesmo da matéria incontrolável do universo – mas que por isso mesmo pode ser radicalmente transformado. Reitera-se a proposta do filme: fantasiar, ilimitadamente.

Maximilian Le Cain, em seu texto sobre Garrel para a Senses of cinema, refere-se aos filmes dessa “fase” do diretor como obras de profunda “alienação”. Ele não usa a palavra pejorativamente, mas aqui eu gostaria de perguntar: se “alienação” se relaciona com “isolamento” e “falta de contato”, seria La cicatrice interieure uma obra alienada em nosso contexto? Obviamente, o filme está enraizado de maneira vital à relação de Garrel e de Nico com as drogas e com um desregramento típico do início dos anos 70 no círculo social underground deles em Paris. Algo dessa boêmia se reflete na própria luz do filme: nunca há um sol muito forte nem uma noite completamente negra – é sempre uma espécie de madrugada eterna do ópio. Podemos aliás ler o filme como a bad trip de algum membro do grupo de jovens que Les Amants Réguliers (2005) retrata no ano de 1969. Mas, não vejo como La cicatrice interieure pode ser “alienado” para um público domesticado pelas fantasias moderadas e comportadas do senhor dos anéis cinematográfico e seus derivados, como Harry Potter. Se o filme se volta para o interior, ele parte de um ponto específico: uma cicatriz. E para lembrar novamente Deleuze, a subjetividade radical anda de mãos dadas com a objetividade radical. Para um cineasta que vai se distanciando do evento-chave que pairará sobre ele como uma sombra (maio de 68), é interessante vê-lo realizar um filme que parece brandir: “l’imagination au pouvoir!”.

André Antônio


ISSN 2238-5290