Un Ange Passe (1975, Philippe Garrel)

Num dos diálogos vivenciados por Un Ange Passe, em que Maurice Garrel e Laurent Terzieff compartilham questões próprias ao ofício de ator, é comentado o incômodo que uma câmera traz, a desagradável sensação de se saber observado, e por isso controlado, pela mecânica de um olho que retêm os mínimos movimentos. A pertinência do problema justifica-se na especificidade proposta pelo filme em que eles se inserem, impulsionado pela pretensão de guardar uma parcela concreta de suas vidas, sem encenação prévia, sem texto a ser consultado. O paradoxo assim se forma por não distinguir a qualidade de uma representação que se prova incontornável, sendo que, ao se colocarem diante da câmera, os ‘atores sem papéis’ continuam atuando, existindo para o olhar externo, mimetizando o abismo de suas próprias existências.

Maurice prossegue, discorrendo sobre uma fantasia que carregava na infância: a de ser constantemente acompanhado por algo maior, capaz de guardar seus gestos, sua voz, numa espécie de dimensão paralela. Corporificar um simulacro, o que termina sendo o exercício de todo ator (ou seja, aquilo que Maurice faria pelo resto da vida adulta), é exatamente o que lançaria a vida de seu filho, Philippe Garrel, agora seu diretor, a um jogo perpétuo de criação e manutenção deste outro mundo, etéreo, fantasmagórico, cinemático.

Para Philippe, o cinema sempre foi uma questão de paternidade, de reconhecimento enquanto indivíduo sanguineamente ligado a outro. Daí recorrer por toda vida, filme após filme, à presença de um pai – e futuramente de um filho –, como se assim pudesse legitimar um lugar próprio dentro do cinema, não solitário, não esquecido, por mais que a história dessa arte diga o contrário. Para ele não é suficiente assinar um filme com um nome próprio, é preciso marcar a imagem de outra forma, emotiva e carnalmente, através de corpos que lhe guardem um contato particular, distintamente sensibilizado.

Vem daí a limitação de associar o cinema garreliano ao de outras influências, por mais que elas existam e se evidenciem claramente. De Lumière a Warhol, o salto efetuado pela obra de Philippe Garrel vem habitar naquilo que distingue o seu movimento do mundano, ou seja, do que interessa a tantos outros experimentadores do cinema; em Garrel, sempre importará um movimento que se consuma pela identificação do afeto, do íntimo, daquilo que não se arranca de uma película, por mais que ela se desgaste. Mais do que uma fórmula, fazer um filme é, literalmente, viver.

As presenças que atravessam Un Ange Passe, seja Maurice, Nico ou qualquer dos outros colaboradores de Philippe, só se afirmam pela ligação biográfica nutrida com seu diretor. Uma imagem de Philippe só vem à luz do mundo se, antes, ela tiver nascido para ele, dentro dele. Em seu cinema, um rosto iluminado e enquadrado é uma vida não abandonada, uma alteridade amada. Preocupação de pai. Eis um cinema de herança, legado de riquezas mensuráveis apenas pelo carinho que as encontrou e uniu; eis um registro maior que a técnica, maior que os recursos escassos de distribuição e resguardo; eis a forma, o vulto materializado, a presença única, interior. Eis o amor.

Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290