Melancholia (2011, Lars von Trier)

Certamente, várias pessoas vão se sentir seduzidas pelo trabalho plástico e visual levado a cabo em Melancholia, e também pelo seu charme grandiloquente de partitura musical. Mas, por sofrerem os efeitos pretendidos por esses virtuosismos que se revelarão em última análise vazios, tais espectadores talvez não atentem para quão conservador o filme de Von Trier é.

O conservadorismo a que me refiro não tem a ver com o gosto de Melancholia pelo tableau vivant, por sua erudição ao citar pinturas canônicas da história da arte ou por seu retorno à narrativa e a uma concepção mais “monumental” de beleza (o próprio slogan do filme é “um belo filme sobre o fim do mundo”). Em uma cena, Kirsten Dunst está num quarto em cujas paredes há livros de arte abertos exibindo várias pinturas abstratas. Num acesso de revolta (propositalmente) patético (todos os personagens do filme propositalmente o são), ela troca todos os livros por outras páginas contendo pinturas figurativas ou representativas. O problema aqui não é a representação. Já há algum tempo que o que alguns têm chamado de “o retorno ao real” no cinema contemporâneo configura uma fuga da abstração dos códigos intelectuais e um gosto pela simplicidade da narrativa e do registro – e até um interesse por certas dimensões de uma noção tão complexa quanto o “belo”. O problema é o conteúdo dessas pinturas que agora compõem a parede do quarto: são todas obras conhecidas (Bosch, Caravaggio, Bruegel…) representando os terrores do inferno, um inverno sombrio, um cadáver, um confronto assustador entre dois personagens, um assassinato etc. Melancholia é um filme de tese e todos os seus virtuosismos e gostos por uma beleza épica apenas existem para ilustrá-la, a saber: qualquer tentativa humana de dar sentido ao mundo é patética e inútil porque, afinal, ele não tem sentido.

Melancholia ostenta seu trabalho formal para reiterar o tempo inteiro essa tese e, além de tudo, sem se dar conta de que ela é velha. E, no caso do filme de Von Trier, conservadora. Pode-se dizer que a falta de sentido do mundo é o próprio ponto de partida da arte moderna (não apenas entendendo por isso o modernismo mas todo o debate estético que começa no romantismo, início do século XIX, e chega a nossos dias), que se vê autônoma, independente dos serviços para a religião ou para a nobreza. A arte moderna é a resposta dos trabalhos da sensibilidade a um mundo sem deus e palco de violentas mudanças e transformações políticas. Existe, então, toda uma tradição da melancolia na arte, uma melancolia que, porém, se dá conta da falta de sentido do mundo, mas parte dela para adentrar a materialidade misteriosa desse mundo e, a partir desse mergulho, formar e descobrir novos e diferentes sentidos, que nunca serão definitivos, mas que se enraízam nos desejos e na libido sensível de todo um contexto histórico que, em si, nunca será eterno.

Von Trier, pelo contrário, não parte da falta de sentido para fazer surgir novas significações: ele quer chegar na falta de sentido, partindo das significações velhas, que já foram exaustivamente desconstruídas. A festa de casamento: o grande sonho de felicidade eterna desmorona em Melancholia como em incontáveis outras obras. Mas por que sequer chegamos a desejar esse sonho, se tudo são frágeis significações precárias num universo material sem sentido? Dunst pede demissão e fala verdades na cara de seu cruel chefe capitalista – mas não porque vislumbre uma ordem diferente da governada por homens como ele. Porque, se nada faz sentido mesmo, para que se importar? Trier, que pode ser historicamente vinculado a um cinema preocupado com questões sociais, mostra em Melancholia criados em situações humilhantes e homens ricos e idiotas – para mostrar apenas como esses dois tipos são patéticos e não percebem que o mundo não liga para sua inútil narrativa de castas de classe. Um kafkismo perverso que virou fórmula. Talvez também por isso não importe se você sair por aí dizendo que é nazista.

O planeta Melancholia não apenas passa pela Terra, ele, contra todas as probabilidades da ciência (Von Trier também lança um ataque virulento à ciência como se esta ainda hoje quisesse abarcar o mundo inteiro como na época do iluminismo e não estivesse atenta para seus próprios limites e condições de mudança) retorna: é a tese de Melancholia – não há como escapar da falta de sentido e do vazio inevitável.

Diferentemente da melancolia estética de outros artistas (para ficar só no cinema, citemos P. Garrel, J, Eustache, M. Pialat, G. Van Sant, S. Coppola, B. Tarr, etc), uma melancolia que é resistência frente a uma ordem estagnada e mergulho radical nas formas materiais do mundo, a melancolia de Von Trier é conservadora, ela olha apaticamente para as coisas, com os olhos de um depressivo muito doente. Não precisamos desse tipo de melancolia – embora o circuito do cinema de arte deva estar se regozijando com toda a polêmica distrativa que o filme vem atraindo.

André Antônio

Agosto de 2011


ISSN 2238-5290