Les Amants Réguliers (2005, Philippe Garrel)

Da revolução, do amor, do passado

A reprise da imagem tenta justificar o tempo jamais filmado, então assim, o ano de 1968 é uma quimera da memória: o fardo da lembrança explode na impossibilidade do esquecimento do rastro daquele tempo onde homens (pelo menos alguns homens) eram ilusionistas, a revolução, um sonho e o amor o combustível de todas as vidas. Garrel cria seu próprio universo distintivo, poético, a partir da repetição e estilização dos detalhes seletos da vida diária que se agigantam em Les Amants Réguliers para os detalhes de uma revolta histórica – e, portanto, essencialmente memorial, cicatrizante. Há a sensação deslumbrante ao experimentar um filme de Garrel (especialmente os mais recentes), algo próximo ao (re)nascimento da execução cinematográfica – como em José Luis Guerin ou Manoel de Oliveira, um redescobrimento da imagem primária, “virgem” como nos primeiros filmes dos irmãos Lumière.

Com Les Amants Réguliers, Garrel nos revela, recria e representa diretamente o grande mito da origem implícita naquele ano de 1968… agora, a paranóia, a sensação de ser um eterno alienígena na sociedade, na fragilidade da sanidade (o tempo parece sempre curar os enfermos revolucionários) e a ansiedade de sempre em agarrar um momento glorioso, tudo isso repentinamente tem um perfeito sentido à luz daquela transcendental Paris dividida, feita em pedaços, fragmentos bélicos que justificam sua pesadíssima tonalidade à história. François (Louis Garrel na melhor atuação de sua carreira) é um jovem poeta revolucionário que tenta de todas as formas fugir do serviço militar. Encontra o amor em Lilie (Clotilde Hesme). Amor esse bem menos sensual do que aquele que foi apresentado em Os Sonhadores (The Dreamers, 2003), de Bernardo Bertolucci: o amor como escala posterior de medição daquele ano de 1968, a crise global após uma época em que os sonhos foram pulverizados pela dor de um mundo inflexível, que pareceu ignorar a tudo e a todos, que fez evaporar a imagem da esperança da história – a imagem que o cinema parece sempre tentar reaver, reescrever, ressuscitar e de algum modo ainda romântico, reprisar.

Imagens estas, no filme, repletas de um estado de potência. Das muitas possibilidades que poderia ou gostaria de ser. Imanam diversos mundos de dentro de si – o mundo do amor, da revolução, do cinema como porta de entrada e de saída de todas as coisas que sejam vida, que estejam vivas. Les Amants Réguliers é uma eterna semente, cujos personagens irrigados com sonhos demais, jamais chegaram a ser. O campo de batalha, a agonia dos soldados derrotados – François, literalmente. Ao seu fim, o filme aparenta ao espectador algo como se nunca tivesse havido guerra, embora pudesse encontrar as cicatrizes por seu corpo, por suas imagens – as iniciais especialmente belas e doloridas, onde os soldados impiedosamente espancam os manifestantes, tudo isso filmado num único e imóvel plano garreliano. François é vítima do excesso do mundo que sempre tentou partilhar: do amor à revolução nunca concretizada; do amor à arte nunca publicada; do amor ao simples ato de amar. Garrel é cúmplice: do amor à arte de cinematizar tudo o que seja memória. 1968 agradece.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290