J’Entends plus la Guitare (1991, Philippe Garrel)

A tríade dos corpos

Dois casais parisienses estão de férias em algum local litorâneo. O primeiro: Marianne (Johanna ter Steege) está com o seu amante Gerard (Benoît Régent); uma pequena conversa e eles iniciam um trocadilho: “la mer” (o mar); “la mère” (a mãe). O amor para Garrel: esse estado de pureza suprema do sangue humano, algo que Gerard e Marianne exercem fisicamente, antes de tudo e qualquer coisa, antes mesmo de uma nova possível vida (um filho? Primeiro o amor, depois a criança). O segundo casal é formado por Lola (Mireille Perrier) e Martin (Yann Collette): ela pergunta pra ele: “Porque você não me pinta?”, a resposta: “Você é real demais”.

Com J’entends Plus la Guitare, Garrel estende o fascínio-culpa de sua memória que se em outrora foi Jean Serberg (Rue Fontaine, terceiro filme da coletânea de curtas sobre Paris intitulado Paris vu par… vingt ans après, 1984), dessa vez materializa-se em Nico, mas com ela, na fronteira da distância que ele impõe entre o amor (a relação conjugada e firmada, o assumir de um compromisso sério) de Gerard e Marianne (explicitamente inspirada na citada cantora) uma relação muito mais destrutiva. Gerrard é um vampiro: seu princípio vampiresco justifica-se como sobrevivência – é necessário consumi-las (as mulheres) para não ser consumido. A imagem-projétil de Garrel: o enigma, pois, o que Gerrard (que poderia tranquilamente se chamar Philippe) realmente anseia? O que o leva sempre a manter a distância? O vampírico como loucura (?), incita Marianne quando diz a Gerard que “quando você parar de ser louco, vai parar de me amar”.

Ínsito no universo do amor, no mistério das mulheres, na vida, em tudo isso, Garrel encontra tudo o que lhe é (ao mundo) possível nos rostos, nos corpos, nas palavras de seus atores (mais uma vez o trabalho do escritor-roteirista Marc Cholodenko é soberbo): uma comunhão de sentimentos, uma possibilidade do encontro do enigma que permeou e ainda permeia os contos imagéticos de Philippe Garrel. J’entends Plus la Guitare é mais um exercício (formal e emocional) da escavação indubitavelmente necessária para expulsar da terra da residência (para um lugar determinado ou para além de certa distância) estritamente garreliana, enigmática de nascença, cujas pistas são partículas probatórias do mais resistente esforço cinéfilo, talvez por isso os telefonemas (uma boa pista nesse esforço desvendador) em suas obras sejam eventos invariavelmente dramáticos: Rue Fontaine (1984), Rene (Jean-Pierre Léaud) interrompe a vida doméstica de sua amante mediante a um telefonema no andar de baixo, suplicando para poder vê-la – e é aí o começo do fim; em La Naissance de l’amour (1993), chamam Paul (Lou Castel) ao telefone depois de ter passado a noite fora de casa, para ser repreendido por seu arrogante filho adolescente, Pierre (Max McCarthy); em Le Cœur fantôme (1996), a vida do pintor Philippe (Luis Rego) se vê desnorteada após uma ligação que o informa da internação de seu pai no hospital.

E aqui, neste J’entends Plus la Guitare, uma ligação de Marianne, agora ex-amante de Gerard, tem um efeito tão perturbador e inquietante em casa que sua esposa Aline (Brigitte Sy), escuta um ruído virtual premonitório, fantasmagórico, alguns momentos antes do som do telefone. Deleuze disse certa vez que “o que Garrel expressa no cinema é a problemática dos três corpos: o homem, a mulher e a criança”, tríade essa que parece ser repelida na mesma velocidade em que os personagens visualizam a impossibilidade de permanecerem juntos ao fim de tudo – ainda que o “fim” seja limitado, já que a cada filme posterior o cineasta parece querer repetir a tentativa de perdão do mundo (ou pelo menos das mulheres que lhe foram importantes) em personagens masculinos evidentemente autobiográficos. E cercado pelos problemas dos corpos (a cena já próxima ao fim quando Gerard está com sua família sentada à mesa – homem, mulher, criança – é emblemática) há essa persistência da dualidade vampiresca e fantasmagórica nesse personagem: depois de consumir todas as mulheres de sua vida só lhe sobra o resquício, o fragmento, o fantasma da memória daquelas mulheres.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290