La Rue Fontaine (1984, Philippe Garrel)

Paixão na escuridão

Rue Fontaine inicia com a câmera enquadrando os sapatos de Rene (Jean Pierre Leaud), homem simples, desempregado, sem perspectiva, pessoa que parece se apegar à memória de suas mulheres amadas, mas mulheres do passado e parece compilar nelas as frustrações de sua vida. Rene é convidado por um amigo a ir até a casa dele conhecer a sua namorada Genie (Christine Boisson). O nome do amigo nunca é revelado. Rene e Genie acabam se apaixonando rapidamente, mas o empecilho é o amigo de Rene, namorado de Genie.

Eles vão ao Louvre e depois transam e ela diz: “Você é tudo o que preciso”. Ela é todo o pensamento de Rene. Quando ele, por sua vez, assume sua paixão indo abruptamente ao prédio dela, o fascínio é interrompido: Genie diz que não pode continuar o relacionamento porque é afiliada a outro homem (o amigo?). Elipse (?) temporal. Ao ver o jornal na banca de revista, Rene se depara com a manchete da morte de sua amada – suicidou-se. Andante, encontra uma prostituta idêntica à Genie – ou isso tudo apenas não seria a memória fantasmagórica de sua amada então já falecida? –, e ali ressalta a sua própria morte – o cumprimento supremo do amor compartilhado: seguir a amada até mesmo na morte.

Na cena do suicídio de Rene a prostituta esvanece (diz que vai à igreja e que ele pode encontrá-la lá; não seria, na vera, o fantasma de sua fugaz amante chamando-o ao paraíso de uma além-vida?) e ele finalmente descobre a sua solidão mais estrondosa. Ele toma o veneno, a câmera mostra uma janela quebrada – a vida interrompida para sempre, talvez –, depois volta para Rene. Ele tenta se levantar. Mas seguir o caminho da amada é o destino de sua vida, de sua memória.

Rue Fontaine é uma interpretação de como teria sido o relacionamento entre Garrel e a atriz Jean Seberg nos tempos de Les Hautes Solitudes (1974) – conturbado, impossível de ser iluminado ao público por conta do matrimônio da atriz com o diretor Dennis Berry, seu quarto marido à época. A história de uma relação que sempre ficou na escuridão, exercendo o dilema do segredo, signo abundante dentro da cinematografia de Philippe Garrel. Literalmente uma paixão vampiresca que só podia ser consumida à luz da lua.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290