Marie pour Mémoire (1967, Philippe Garrel)

O trauma da nova geração?

Primeiro longa-metragem de Philippe Garrel (ele realizou a obra quando tinha dezenove anos), Marie Pour Mémoire é a síntese do abismo enigmático da cinematografia garreliana: o que existe ali nada mais é do que a concepção da impossibilidade de amar o outro, de ser maximizado na alma alheia – porque tudo isso para Garrel parece ser não muito mais do que mais uma parte da efemeridade humana. Vidas paralelas que se cruzam, que anseiam realizar o sonho da comunhão, mas que prontamente o cineasta recusa: em meio ao amor que nasce o caminho do casal está traçado, um para o suicídio e o do outro para a infelicidade.

A história de dois adolescentes chamados Marie (Zouzou) e Jésus (Didier Léon) que se amam e que querem viver juntos. Seus pais são contra essa idéia – o ideal dos personagens de Garrel desde sempre sendo confrontado, os pais de Marie e Jésus podem ser lidos como a sociedade que impede o sonho de François em Les Amants Réguliers (2005), inclusive na metáfora da morte ao tentar trespassar essa barreira proibitória -, mas mesmo assim o casal segue em frente, o jovem Garrel já sabia que a única coisa que poderia impedir o amor seria a morte.

Alguns anos mais tarde o cineasta disse que “Marie descreve o trauma da nova geração”. Mas que trauma seria esse? O da impraticabilidade dos ideais mais íntimos? O surto pós-moderno do ócio da juventude (que hoje em dia é tão antagônica aos corpos e corações da década de 1960)? A primeira inserção do enigma garreliano tão ousado e complexo e que quase cinco décadas depois ainda precisa ser desvendado? Talvez o tempo, se não para confirmar pelo menos para hipnotizar (como fez o próprio cineasta com o ano de 1968 em sua obra-prima, Les Amants Réguliers) seja capaz de conceber o segredo embutido na descrição do autor para com a sua obra.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290