Os Cowboys de Leningrado Encontram Moisés (1994, Aki Kaurismäki)

Reprisando o irreprisável

Continuação direta do cultuado Os Cowboys de Leningrado Vão à América (1989), esse Os Cowboys de Leningrado Encontram Moisés (1994), tem sua moldura narrativa construída a partir de tudo aquilo que no seu antecessor melhor se mostrou: a funcionalidade de um road movie revestido de musical incomum, com personagens cujas vestimentas esquisitas não muito raramente sobrepunhavam aos sentidos do espectador as emoções congeladas daqueles que as vestiam. Entretanto, copiar as sutilezas de um filme anterior e colocá-las a serviço da continuação, apresenta-se como algo, no mínimo, bifurcativo: repetir-se pode ser a chave da solidificação da narrativa e estética imprimida, como também pode ser a obviedade das ações dos personagens e dos próprios mecanismos do filme, causando assim, um desnecessário sentimento de reprisação.

Infelizmente, para os admiradores do primeiro filme, é a segunda opção que se cristaliza praticamente durante toda a projeção de Os Cowboys de Leningrado Encontram Moisés. A reprisação se forma quando Aki Kaurismäki ao tentar recontar a saga da banda finlandesa, não consegue criar artifícios próprios de um filme teoricamente “novo” (e conseqüentemente, se desfazer dos artifícios do primeiro filme), aonde uma identidade (especialmente nos filmes de Kaurismäki, todos sempre tão identitários) renovada precisa ser construída, porque uma continuação por mais que esteja ligada ao seu antecessor, tem de trazer aspectos indelevelmente seus, legitimando assim, a necessidade de sua existência enquanto processo fílmico continuativo.

O filme se passa alguns anos após Vladimir (o sempre irresistível Matti Pellonpää, aqui se passando por Moisés), o cascudo manager da banda Leningrad Cowboys ter misteriosamente a abandonado e sumido no meio do deserto mexicano (no filme de 1989, a exótica banda sai de algum lugar da Finlândia para ir aos E.U.A e depois acabam indo ao país latino). Sem um líder, os integrantes perdem o controle de suas ações e, como bem diz nos segundos iniciais do filme, acabam morrendo ou sendo presos por causa de um inimigo chamado tequila – sim, a bebida.

Menos momentos memoráveis aqui do que no filme original. Menos diálogos também. Aliás, Aki Kaurismäki ainda que seja um cineasta que preze pela minimização dos diálogos, nunca poderia ser considerado um realizador que preza pelo silêncio. A música (especialmente o rock, o jazz e o blues) em seu cinema é o fio condutor que destrona o silêncio maximizado pelo não-diálogo de seus personagens. Ela possui uma espécie de função de incrementação (artifício esse excepcionalmente bem usado pelo cinema de Pedro Almodóvar; cineasta, aliás, que Aki Kaurismäki brinca que sempre tenta fazer um filme como o seu, mas sempre sem sucesso), que muitas vezes revela os sentimentos mais íntimos dos personagens, mesmo quando eles estão no mais intocável dos silêncios e em outras vezes simplesmente existe para galhofar a narrativa.

Kaurismäki é um daqueles que, acredito, acham que o cinema mudo sempre falava demais. No entanto, se essa minimização dialogal nos faz descobrir outras sutilezas, é justamente porque o cineasta finlandês pensa que, num filme aonde a caricaturização e a reprisação são os grandes protagonistas – infelizmente –, talvez a linguagem verbal lhe parecesse como um poderoso rival sempre pronto a se tornar por demais exigente. Mas apesar da indiscutível inferioridade perante não só ao seu antecessor como a outros tantos filmes do diretor, Os Cowboys de Leningrado Encontram Moisés é sim uma obra kaurismakiana, e a antológica cena (fatalmente um dos raros momentos de verdadeiro insight do filme) de Vladimir/Moisés caminhando sobre a água da piscina, comprova o pedigree de seu realizador.

Mesmo durante e após o filme, a sensação de ter visto a uma obra de Aki Kaurismäki permanece intacta (a montagem cirurgicamente realizada, a inexpressividade facial dos personagens, as situações absurdas), porque a imagem que se constrói de um diretor com visões próprias, dá a ele a possibilidade de equívocos, de reprises, de reescrituras de seu próprio cinema. A reprisação quando há talento, pode, posteriormente, ajudar o artista a se superar.

Ricardo Lessa Filho

Junho de 2010


ISSN 2238-5290