A última geração do amor

Para Maurice Garrel, in memorian

Na contramão do tempo, o primeiro Garrel que eu amei foi Louis. Rosto de minha geração. Quem me pegou pela mão (ou, literalmente, pelos olhos) para apresentar o cinema de um pai que também faz parte de meu presente histórico. Que está nele. Mas que não é dele. Talvez. Philippe, dono de um mundo todo seu, compartilhado, estampado numa sucessão de filmes que não faz mais do que sustentar sua vida. Que faz tudo. E que também é filho. Deste que hoje me aproximo, a quem só agora realmente toco, seja para entender seu filho, ou para simplesmente suprir o que em mim urgia pela necessidade de um novo amor, meu último amor: Maurice.

No recorte das três gerações é como se eu reencontrasse o afeto perdido, o elo de um pathos autônomo aos mecanismos de uma arte industrial. Retomada de intimidade. Coisa de sangue. E só me cabe o riso ao ver Maurice, em Les Baisers de Secours (1989), advertindo o filho de que cinema não é só imagem. Só me cabe a lágrima. Pois se a vida não é só cinema. Na constante recorrência ao pai, em papéis de aconselhamento que, filme a filme, não resultam em qualquer sabedoria excedente, Philippe vem reafirmar sua origem, a de filho da imagem. E posteriormente, dela um pai.

Se há um desencanto do mundo, uma impossibilidade da existência no cinema dos Garrel, isso acontece na medida em que falar a respeito do assunto também se torna impossível. Ouço a queixa de protagonistas, em J’Entends Plus La Guitare (1991), que se acreditam a última geração capaz de amar, ou pelo menos, de falar sobre isso; e daí venha a justificativa de me ser, este, um filme impossível, insuportável. A derrocada do amor, o silenciamento da fala, indícios de uma liberdade não mais associada ao presente. Pois qual é o tempo do amor? Ou para o amor? Como encontrá-lo no fruto de um ventre (La Naissance de L’Amour – 1993), no devaneio de um adormecer (Le Coeur Fantôme – 1996), como torná-lo imagem? É do cinema o amor? E eu repito, de novo e de novo, para mim, que cinema não é só imagem.

Somente na cena da reunião familiar, em Les Amants Réguliers (2005), quando ao redor de uma mesa se ajuntam Maurice, Louis e a mãe deste, vislumbro o significado da advertência repetida. Quando a câmera registra mais que um conjunto de imagens. Mais que sons de diálogos, contornos de formas, algo subterrâneo. Na tentativa de Maurice ao relembrar um truque barato de ilusionismo, todo um cinema. Pois não importa se o velho ator acerta ou não em seus gestos, já que unicamente por sua presença o convencimento da ilusão se concretiza, a magia.

No último dia 04 de junho, Maurice Garrel encerrou a possibilidade de uma nova imagem. Sua morte, praticamente simultânea ao lançamento do novo filme de seu filho, Un Été Brûlant (2011), em que também participa, abre uma fissura na arte do cinema como talvez nem seja possível mensurar. Com sua partida, despedimo-nos não somente de uma face do cinema, mas de um amor, e mais importante, de uma maneira de amar. O morrer de uma geração, mais do que registrado pelo afetivo trabalho dos Garrel, oferta-nos um confronto, uma não desistência que mesmo dolorosa persiste, permanece. No retrospecto de seus filmes, mais que uma lógica de carreira, ou menos, pois é do amor o impulso, a desrazão. E eu me questiono sobre a veracidade de um fim. Afinal, encontrei-me com Maurice após esta suposição. Só depois o amei. E não foi menor.

Foi o tempo de um último conselho: nem tudo na vida é cinema, mas tudo no cinema é vida.

Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290