Super 8 (2011, J.J. Abrams)

O resgate de uma herança

Escrever sobre Super 8 é escrever sobre uma herança. Herança duplamente adjacente à cinefilia: a herança da emoção e a própria herança cinematográfica. Não poucas vezes na história do cinema um filme serviu ou pelo menos teve o aroma de um testamento fílmico de seu realizador. Porém Super 8 expõe um caso bem mais isolado (pois não ousaria a dizer único), quando o herdeiro toma para si a fórmula-mestre, e o veterano, o professor (e produtor) entrega para esse herdeiro e também aprendiz não somente a fórmula como todos os segredos de um gênero que, décadas atrás, o agora professor-produtor foi o maior dos expoentes. Steven Spielberg e J.J. Abrams. Passado-presente e presente-futuro, respectivamente, do cinema de ficção científica, do gênero fantástico para as massas não poderiam fugir do inevitável: a união de forças.

Super 8 serve como uma espécie de elogio decisivo a J.J. Abrams não somente como cineasta, mas também como autor, apesar do filme ter como principal recurso criativo o pastiche/tributo – recurso que não o torna menos autoral, vide Tarantino. Por mais que a figura de Abrams tivesse um destaque endeusado por suas obras televisivas (LOST foi o maior dos seus fenômenos dedicados à TV), sua breve filmografia como cineasta necessitava de títulos de destaque (pois a sua melhor obra até então foi a reinvenção do universo de Star Trek feito em 2009), sendo Cloverfield – Monstro (Cloverfield, 2008) muito mais lembrado pelo marketing viral do que pela obra em si e o terceiro filme da franquia Missão Impossível sendo algo absolutamente dispensável.

Se Super 8 não nos permite estar diante de uma obra-prima espetacular e indiscutível, nem de ver a consagração definitiva de seu realizador, permite-nos estar diante da confirmação de um talento que se transforma em realidade e que espanta à bicudas o Abrams que só consegue ser brilhante enquanto guru midiático. Spielberg, por sua vez, parece transfigurar-se na alma de seu herdeiro, mas deixando espaço suficiente para que o pupilo desfile o seu próprio e mais íntimo encontro com o tipo de cinema que sempre lhe foi caro. Assistir ao novo filme de Abrams é dar um salto para trás de trinta anos para ter novamente o delicioso reencontro com um cinema de aventuras de dimensão humana, muito mais profundo que o cinema de aventuras dos efeitos especiais.

Os protagonistas são um grupo de crianças que se veem envoltos em uma trama que inclui um estranho acidente ferroviário, extraterrestres e a filmagem amadora (numa câmera super 8) de um filme de zumbis. O filme que não por coincidência está ambientado em 1979, pede de todos os modos a chance de contar uma história onde acontecem coisas extraordinárias e gigantescas, porém, do ponto de vista do grupo infantil que está em plena descoberta do mundo. Deste modo, os efeitos especiais passam para um segundo plano e o que na verdade importa são os personagens, suas reações, suas emoções, que passam como numa metamorfose única e inesquecível, a serem de novo nossas.

Voltando à herança, o protagonista Joel Courtney (cujos traços me fizeram lembrar de Harvey Keitel) tem o olhar do pequeno Elliot (Henry Thomas) de E.T – O Extraterrestre (E.T.: The Extra-Terrestrial, 1982), do próprio Spielberg e a própria memória-herança do alienígena dentro do trem descarrilado compactua para o resgate de um passado cinematográfico, pois a eleição do elenco infantil é de uma assustadora química, tamanho alto nível que pode ser tranquilamente equiparada ao elenco de Os Goonies (The Goonies, 1985), de Richard Donner (película que também compartilha a produção encarregada por Spielberg) ou de Deu a Louca nos Monstros (The Monster Squad, 1987), de Fred Dekker.

Ao seu fim e depois dele, Super 8 não se trata mais do que uma operação nostálgica, de uma reedição digital do cinema dos anos 80 e final dos anos 70, época em que os filmes do gênero outrora desprestigiados ou ignorados, reduzidos a um nicho cinéfilo, passaram a ser de domínio das massas, da alta indústria de Hollywood. Super 8 dessa maneira reproduz o maior dos resgates ao permitir o (re)encontro de um tipo de cinema já esquecido. Um cinema que sabe contar histórias grandiosas, mas sem grandiloqüência ou megalomania. Um cinema que volta a olhar para os personagens antes do impacto visual. Um cinema que Spielberg soube cultivar como poucos há trinta anos e que agora Abrams resgata para alegria daqueles que estavam fartos das superproduções tecnicamente deslumbrantes, mas vazias em sua essência de um cinema que conta uma história. Abrams ensina que ficção científica é antes de tudo um estado da alma.

Ricardo Lessa Filho

Agosto de 2011


ISSN 2238-5290