Os Cowboys de Leningrado vão à América (1989, Aki Kaurismäki)

O sonho americano desdramatizado

A logomorfia do cinema de Aki Kaurismäki reside atentamente em um ambiente que vai do esdrúxulo até o cômico, passando pelo musical low-fi e por certa necessidade de expor com uma crítica geralmente irresistível a sociedade finlandesa contemporânea. Os Cowboys de Leningrado Vão à América (1989) sintetiza com extrema eficiência, essa busca do cineasta finlandês por essa estética (talvez não no sentido de imagem e forma, mas sim de aura e mise-en-scène), que podemos considerar algo próximo do desprezo cômico desdramatizado.

O filme, como praticamente todos de Aki Kaurismäki, toma forma a partir de uma história essencialmente simples: uma banda de folk/rock finlandesa chamada Leningrad Cowboys (que realmente existe e que se intitulam ‘a pior banda de rock ‘nroll do mundo’) almejando algum sucesso, parte para os Estados Unidos sem noção alguma do que fazer ou para onde ir quando estiver no Tio Sam. Não bastassem os numerosos integrantes para que Vladimir (Matti Pellonpää), o manager da banda, se preocupasse, ele ainda tem que levar o cadáver de um dos membros de sua família a tira colo, já que era o maior sonho do finado parente conhecer a sonhada América.

O mínimo que faz emergir um cinema dramaticamente indestrutível. Kaurismäki busca, sempre, uma possibilidade do absurdo finlandês através das emoções (na verdade, das emoções faciais finlandesas praticamente inexistentes) e das situações que se assumem becketianas desde o princípio. Já no início de Cowboys, o cineasta põe à prova a sua gozação com o absurdo: a banda que dá nome ao filme, tocando em uma garagem de algum lugar do interior da Finlândia com outfits dos mais bizarros possíveis (todos vestidos igualmente com um sapato cujo bico mais parece uma espada de esgrima e com um topete gigantesco apontado para frente) para um suposto produtor musical, que, após escutar a banda em ação, recomenda que ela vá buscar um lugar na América, porque lá “consomem tudo”.

É desse ponto de vista absurdo – a cena aonde os Cowboys se deparam com um homem que provavelmente tivera seu topete raspado é o espelho desse olhar incomum – que Kaurismäki faz, provavelmente, o road movie musical mais (in)delicado possível. Porque ele está interessando, na vera, em desidratar os pormenores que são lançados aos olhos comuns e por eles esquecidos. Há uma imensidão de detalhes que jazam no filme e que para compreendê-los é necessário aceitar as diferenças cinematográficas de um homem como Aki Kaurismäki, cuja montanha de emoções em seus filmes sempre beira a rostos pertos do imutável e, talvez, a algumas leves risadas.

E tendo visto todos os longas-metragens do cineasta antes de Os Cowboys de Leningrado Vão à América, evidencia-se mais do que nunca uma musicalidade estonteante em sua filmografia: enquanto os filmes anteriores a Cowboys sempre se utilizavam da música como uma espécie de incrementação na narrativa, nele a música não se contenta somente em ser um adicional, pede para si mesma maior atenção e visibilidade, ao ponto de vários dos melhores momentos do filme inexistiriam caso não houvesse a explosão sonora divertidíssima dos Leningrad Cowboys.

Kaurismäki assume seu cinema de uma forma incontestadora, negando o levantamento de qualquer bandeira (sim, o filme é também uma humorada crítica a União Soviética, a Finlândia e aos Estados Unidos, aonde, teoricamente, todos os sonhos se realizam), cuja desdramatização emotiva esconde um significado maior: antes de uma experiência formalista ou esquisita, a proposta do filme é acima de tudo uma bela metáfora do deslocamento – e a cena, já no fim, em que os Cowboys olham as fotos de suas respectivas mulheres, humanizam aqueles homens até então impenetráveis a qualquer emoção.

Ricardo Lessa Filho

Junho de 2010


ISSN 2238-5290