Namorados Para Sempre (2010, Derek Cianfrance)

As regiões que somente agora ganham em seu circuito a exibição de Namorados Para Sempre, não participaram, ou pelo menos sentirão em menor escala, de um dos mais controversos lançamentos que o mercado cinematográfico sofreu em 2011. Foi em Junho, no mês dos namorados, exatamente no final de semana que celebrava a data romântica, que o filme de Derek Cianfrance ganhou as telas do Brasil. A reação da crítica e dos meios de divulgação culturais foi instantânea e unânime: 10 entre 10 comentadores do filme se preocuparam em alertar o público de que este não era um programa adequado para o dia dos namorados, que o título era um equívoco de tradução, em suma, que o romance pretendido pela sessão poderia surtir o efeito contrário e um provocar de dor e questionamentos certamente não esperados pela platéia. Há algum tempo a crítica jornaleira (que também infesta o âmbito virtual) não errava tão feio em sua abordagem, comprovando desconhecer o lugar da crítica, pelo menos desta que sobrevive num cenário de consumo exacerbado e que, deste meio, precisa extrair e provocar um mínimo de consciência na relação público-filme.

Não querendo apostar numa ingenuidade barata, mas correndo o risco de incorrer nela, ficamos tentados a perceber, passados alguns meses, que provavelmente a divulgação de Namorados Para Sempre, até mesmo pela mediocridade do título nacional (ressalte-se que Blue Valentine também não abre grandes ambigüidades), contou com uma ironia sintonizada ao filme muito maior do que aqueles que o leram posteriormente. Ora, foi o inusitado lançamento do filme numa época que pedia os clichês das comédias românticas, e não contava com nenhuma delas em cartaz, o que fez de Namorados Para Sempre uma das maiores surpresas do ano! Na contramão, a estupidez da ‘crítica’ optou por simplesmente destruir qualquer expectativa, recorrendo a um discurso muito velho de prevenir o espectador na imprevista relação que este poderia ter com o filme. Mas quem disse que um espectador precisa ser alertado? Quem define o que é ou não adequado para o consumo? Com essa postura tacanha, a ‘crítica’ comprovou que continua precisando de um happy end para saber divulgar um produto.

Uma breve cena do filme dá o tom exato de sua dimensão: Michelle Williams observa Ryan Gosling enterrando o cachorro da família no quintal de seu lar, o mesmo animal que abriu Namorados Para Sempre, sendo procurado pela filha do casal antes de o encontrarem morto e abandonado numa rua próxima; Michelle contempla atentamente, numa tensão involuntária, mórbida; vemos o contracampo imediato de sua aflição – o plano distanciado do sepultamento – e somente quando ela não consegue mais reter o fôlego, deixando escapar um suspiro, percebemos que ela está dentro da casa, do outro lado de uma janela; daí o vidro ser manchado por sua respiração. Este é todo o sentido que norteia o trabalho de Cianfrance junto ao relacionamento do casal: aproximar-se de suas emoções apesar do que possa haver entre elas, dar a ver o vidro, as barreiras justapostas, mas não se preocupando em rompê-las ou atenuá-las. Há respeito na dor, no silêncio que se impõe enquanto resposta. Há amor.

O trabalho dos atores envolvidos, pela espontaneidade com que se deixam flagrar e mesmo participar confessamente na criação de parte do belo texto que dá forma a Namorados, não encontra paralelo no cinema contemporâneo pelo menos desde a parceria retomada entre Richard Linklater e os atores Julie Delpy e Ethan Hawke, em Antes do Pôr-do-Sol (2004). Da potencial relação entre estes nomes, um maior esclarecimento ao olhar que Cianfrance – realizador advindo do gênero documental – procura a partir deste seu primeiro longa de ficção. Enquanto Linklater filia-se a um cinema de duração, onde o tempo se exprime pela contigüidade da imagem mas também pelo fruir do verbo (há que se pensar em Rohmer), Cianfrance trilha um caminho radicalmente oposto, um espaço em que o tempo e o verbo subsistem apenas como fragmentos de algo que passou, estilhaços de mundos (agora é Cassavetes a referência). Pelas distintas modernidades, um e outro cinema partilham de um mesmo pacto, selado pela esperança da representação, não importa quão desgastada ela esteja.

Falar sobre a esperança de um amor, na maneira como Cianfrance o faz, também é falar sobre tudo o que se inventa para tornar um sentimento real, sobre o que é virtual, ficcional, aquilo que é impalpável, mas que solidifica uma emoção verdadeira. Daí ser todo o interlúdio naquele quarto de motel barato, decorado numa temática futurista, o mais agônico dos espaços enfrentados pelos amantes. Namorados Para Sempre é este absurdo palco de ficção científica, núcleo de sentimentos que se perderam no tempo, dimensão não qualificável pelos rumos que um último abraço ou última lágrima podem provocar. A derradeira dor de sua projeção, não decorre em nada da afronta ao happy end, pois não há final que seja feliz para a matéria cinematográfica. A promissora estréia do diretor nos circuitos comerciais, por mais que não se negue enquanto artifício de uma edição viciada, logra o feito de retratar convincentemente uma parcela significativa da vida. Nem deveria ser preciso repetir, mas dados os fatos expostos inicialmente: vida é coisa que não se previne.

Fernando Mendonça

Setembro de 2011


ISSN 2238-5290