Mamute (2010, Gustave de Kevern & Benoît Delépine)

O motoqueiro fantasma

Gustave de Kervern e Benoît Delépine são responsáveis por uma das mais ácidas, negras e pessoais obras da comédia francesa nos últimos tempos. O filme é Aaltra (2004), um debut cinematográfico em preto e branco cujo sarcasmo corta limites insuspeitos na hora de retratar uma curiosa relação entre dois vizinhos que se odeiam e que acabam montados em suas motos, cena essa resultada após uma de suas muitas discussões. Aaltra parece de certo modo sintetizar o rumo de sua dupla de cineastas que com o sucesso do filme empreitaram-se em uma carreira solidificada numa perspectiva duplística. Um dueto que se seguiu com Louise-Michel (2008), um filme que não fez mais do que corroborar o particular registro cômico de um estilo, de um cinema eminentemente pessoal, estranhíssimo, um cinema que, salvo a distância, é capaz de convergir ao delírio e histrionismo de um Terry Gilliam (em seus melhores dias) com o humor negro com pitada de surrealismo dos irmãos Coen.

Mamute é pela “natureza” criativa de seus realizadores, um filme sobre fantasmas, mas com uma abordagem bizarramente confusa: Serge (Gerard Depardieu) após se aposentar de um matadouro de porcos, descobre, durante uma visita para ajustar os trâmites administrativos relativos à sua pensão, que, ao longo de sua caótica vida, vários de seus empregadores esqueceram “casualmente” de registrar seus pagamentos. Para conseguir receber o dinheiro que lhe é de direito, Serge resolve fazer uma viagem para os lugares onde ele trabalhava quando mais jovem. A bordo de sua velha motocicleta, Serge retomará o contato com os amigos, ex-companheiros de trabalho e familiares que não tinha notícias há décadas.

O fantasmagorismo em Mamute dá seu sinal de vida pela imagem de Yasmine (a eternamente bela Isabelle Adjani), o primeiro amor de Serge, falecida em um acidente automobilístico. Yasmine é a pulsão da (re)descoberta de Serge sobre a sua própria pessoa e sobre a própria vida: a imagem que ele auto-projetou de si mesmo é bastante diferente da imagem que ele deixou nas pessoas de seu passado, que longe de se aproximar do homem duro e ignorante, reconforta-se na definição do bom funcionário, do bom amigo, do bom tio, do bom amante. A película é propositadamente estapafúrdia: uma quarto de hora de apresentações (vontade, desde, ao ponto) e uma hora de notas excêntricas (o encontro estranhamente libidinoso com o tio; a sobrinha com desajustes mentais), que nunca parece revelar a intensão de toda a sua narrativa (e que por mais que pareça estranha essa escolha, ela se mostra acertada em um filme tão peculiar quanto este). A tendência ao raro, aos acontecimentos pouco comuns enquanto alivio cômico, situa Mamute, assim como o seu protagonista, numa posição deslocada, o primeiro em relação ao gênero que recusa se encaixar, o segundo em relação ao óbvio mundo em que se recusa viver.

O fantasma de Serge é portanto não só Yasmine, mas a própria memória daquele seu mundo que ele passou tanto tempo sem buscar. É na humanidade do personagem de Depardieu, cujo fisicismo de sua presença compendia o título do filme (que é uma referência à Münch Mammuth, motocicleta alemã criada na década de 1960 que tinha acoplado no corpo um motor de carro dando a máquina uma imagem “obesa”), já que Depardieu, sempre excepcional, nunca esteve tão gordo.

Delépine e Kervern entregaram uma história amável que parece uma homenagem a todos aqueles que preferem viver à margem da normalidade (que induz muitas vezes à mediocridade do espírito). Numa mixagem de possibilidades tão palidamente claras, que ao fim, mesmo sem entender completamente toda a sua existência enquanto processo narrativo, o filme emerge de toda aquela proposital confusão uma sensação otimista de que tudo, por pior que seja, tem um motivo para elevar o homem a um nível só seu, impenetrável e secreto. E isso já é bastante coisa.

Ricardo Lessa Filho

Setembro de 2011


ISSN 2238-5290