Larry Crowne (2011, Tom Hanks)

Não se pode esperar algo maior do que o nome de Tom Hanks na relação que os filmes dirigidos por este se permitem nutrir. Seja nos inúmeros projetos televisivos em que ele se envolve ou nas raras incursões pela direção cinematográfica (Larry Crowne é apenas a segunda, quinze anos após sua estréia com That Thing You Do!, por aqui mais conhecido como The Wonders), fica claro que: 1. Tom não se pretende um autor ou dono de qualquer estilo reconhecível; 2. Seus projetos não visam uma bilheteria específica ou de grandes vultos; 3. Sequer é possível imaginar que ele deseje maior sucesso ou reconhecimento acadêmico (coisas já conquistadas pela sua carreira de ator); e 4. Por mais que sua assinatura não garanta algo além de uma fórmula para o entretenimento rasteiro há nela uma honestidade que faz falta em muitos dos grandes cineastas em atividade – fato ainda mais evidente em tempos de cinemas que se destacam e consagram por um pedantismo que também não foge à fórmula.

Apesar do abismo que separa seus dois longas e da clara distinção que o próprio Hanks parece fazer em não associá-los, existem sim algumas conexões que merecem observação e, de alguma forma, explicam – ainda que não justifiquem – o lugar de Larry Crowne dentro de uma filmografia tão atípica. Se The Wonders esbanjava simpatia através de uma visão nostálgica, onde o passado pedia uma revisitação crível e configuradora de perspectivas carentes para os anos 90, Larry Crowne corre o risco de tornar-se antipático exatamente pela acusação que outorga ao nostálgico, ao tempo que passou e não larga, que fica, contra a vontade, machuca e fragiliza qualquer condição de presente.

Toda a prerrogativa de seu novo filme baseia-se nesta inadequação dos tempos, dos seres e coisas que envelheceram e não se adaptaram ao novo mundo que pouca novidade traz. Das profissões aos sentimentos de uma relação amorosa, do vestuário à decoração de interiores, nada resiste ao tempo. Pois se há algo que movimente o enredo de Larry Crowne é esta necessidade de mudanças, de renovação das formas e concepções que conectem o homem ao mundo e ao próximo, ainda que a finalidade seja ter um mundo sempre igual de relações sempre as mesmas.

Vem daí o cenário mais interessante do filme: a ‘garagem de usados’ que o vizinho de Larry construiu após enriquecer num programa de auditório. O lugar, já famoso na região, reúne todo tipo de antiguidades e distrações, e é nele que Larry encontra auxílio, seja no companheirismo do casal de proprietários (é digno de nota que a vizinha seja encarnada por Pam Grier, mulher que, desde Tarantino, se tornou uma das faces da nostalgia para os anos 90), seja na alternativa financeira advinda da icônica motocicleta adquirida por Larry, ou mesmo no espaço que este encontrará para se integrar aos colegas mais jovens que faz na faculdade, todos encantados pelo mundo de brechós e recicláveis. Eis um passado com valor, com lucros e afetos típicos da mercadoria e de toda uma política do consumo; um passado que só importa a partir de sua rentabilidade, que anula a apreciação e se afirma enquanto negócio; um passado típico de Hollywood.

O que há de se lamentar mais intensamente em Larry Crowne é a inabilidade de trazer esta reflexão sobre o passado para o cerne de sua forma final. Pois se o filme começa e se desenvolve enquanto crítica de costumes, onde o humor vem atuar como aliado de um feeling irônico bastante fluido e inicialmente bem resolvido, não dá pra entender direito o que levou todo o projeto a transformar-se, bruscamente, em mais uma comédia romântica com Julia Roberts. Tudo bem, é verdade que somente a presença da atriz já prometia tais descaminhos (assim como a participação de Nia Vardalos no roteiro), mas render-se aos mesmos clichês e resoluções é o mesmo que esvaziar toda a motivação de um discurso. A impressão que fica é a de uma mudança não concretizada: Tom Hanks é sempre Tom Hanks, por mais acessórios que ele acrescente ao figurino, e Julia Roberts terá sempre aquele belo sorriso guardado para os minutos finais de projeção. Algumas coisas não mudam.

Fernando Mendonça

Setembro de 2011


ISSN 2238-5290