A Ansiedade do Olhar

Há de se registrar a presença de Andrea Tonacci no XV Encontro Internacional da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema (SOCINE – UFRJ), no último dia 21 de setembro, como parte da programação do Seminário Temático ‘Cinema , Estética e Política: a resistência e os atos de criação’. Na ocasião, o cineasta conversou a respeito de algumas questões primordiais para uma aproximação de seu cinema, construído por uma carreira tão particular, de poucos títulos, muita experiência na bagagem e uma sensibilidade que se destaca no cenário de produção mundial – pois há mais do que uma identidade de nação a ser discutida em seus filmes.

Tirando proveito da certa intimidade que o diálogo com o público (universitário) naturalmente gerou, Tonacci exibiu um considerável material inédito, fruto de suas filmagens nos anos 80, decorrente dos primeiros contatos que nutriu com os índios Arara – lembremos de todo o longo período que o diretor optou por viver em meio as florestas, afastado da realidade urbana e disposto a encontrar uma nova postura de percepção para com o mundo e o próximo. E foi desta projeção que algumas revelações brotaram, seja pela imanência das imagens cruas (não editadas e desprovidas de qualquer decupagem que não aquela intrínseca à câmera), pelas palavras calmamente escolhidas por Tonacci ao elaborar suas respostas, ou mesmo pela gestualidade de suas reações aos questionamentos dos estudantes e profissionais lá presentes.

Foi com a tranqüilidade de um homem que já esteve perto de dominar o tempo, em meio a silêncios expressivos, esquecimentos momentâneos da linha de raciocínio, enquanto fechava os olhos ou coçava a cabeça, que Tonacci discorreu a respeito do olhar ansioso que impera em seus filmes, sua procura pelos “desenhos dos corpos, os olhares e a relação entre eles”. Segundo ele, filmar é estar sempre “em prontidão para alguma coisa: um gesto, um tique de rosto, uma palavra, um som…”, e daí inferimos uma assertiva que diz respeito não somente ao projeto indianista do diretor, do qual Serras da Desordem (2006) delineia um inquestionável ápice, mas a toda sua preocupação cinematográfica, materializada desde Bang Bang (1971) ou BláBláBlá (1975).

Para Tonacci, um ato de filmagem se justifica somente a partir da procura de uma continuidade, como se através da câmera fosse possível observar a forma do pensamento, o perceber a si mesmo. Ele sempre faz questão de frisar, quando o debate se aproxima do caráter antropológico de seu cinema, a subjetividade do olhar que se debruça ao outro, que apreende o outro, mas que não é do outro. “Do outro eu nada sei, sei somente que ele me pensa, mas não como me pensa ou o que pensa de mim.” Vem daí a necessária conscientização de aproximar-se desconhecendo, baseado unicamente em suas imagens interiores, despido de qualquer padrão visual externo.

Relacionar-se com um lugar a partir dos sentidos foi exatamente o que o motivou, um dia, a abandonar os centros urbanos: desenvolver a pele, desintegrar os horizontes antigos, deixar-se enredar na criação de novas dependências a partir do contato com a interferência externa. Da nova compreensão para o mundo, o cinema vem operar como outra responsabilidade da postura humana, seja pelo sentido narrativo determinado quase organicamente junto ao processo fílmico, ou – e principalmente – pelo exercício de montagem, que, para Tonacci, representa a segunda dimensão do que fora vivido enquanto realidade sensória, um espessamento desta, um interesse oculto.

“O acúmulo de imagens tem um peso no autoconhecimento”, foi a primeira observação feita pelo diretor no encontro citado. E tudo parte daí. A bem da verdade, uma perspectiva que não se limita aos cinemas correntes em 2011, mas que nos acompanha desde, pelo menos, o exato período em que Tonacci começou a trabalhar com cinema (anos 60/70). O que distingue seu olhar, sem deixar de aproximá-lo a outros igualmente pertinentes à contemporaneidade, pode estar relacionado justamente a esta consciência do acúmulo: acumulamos imagens, movimentos, mundos dentro de nós; aprisionados estamos a um peso perpétuo, à beira do desequilíbrio; mas o que fazer com tanto? Fica a pergunta de um cinema não encerrado, um conflito não resolvido, uma humanidade.

Fernando Mendonça

Setembro de 2011


ISSN 2238-5290